segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Paremos de dizer que a UE é um falhanço!


8 julho 2013 De Volkskrant Amesterdão


Aguilar

Esquecemo-nos disso frequentemente, mas fazer parte da UE permitiu a países como a Espanha e a Itália desenvolverem-se economicamente abandonando as suas aspirações coloniais. Um exemplo igualmente válido para o futuro da União, defende um politólogo holandês.
Meindert Fennema

“A África começa nos Pirenéus.” Este aforismo foi frequentemente atribuído a Alexandre Dumas, mas foi utilizado em 1959 por Albert Camus. Essa frase horroriza os espanhóis. Se há continente a que os espanhóis nunca quiseram ser associados, é África.

De facto, desde 1898, data da independência de Cuba, ficou absolutamente claro que a Espanha deixou de ser um império. Mas, durante muito tempo os espanhóis perguntaram-se se não poderiam, ainda assim, continuar a ser a capital cultural da América hispânica. Durante o regime de Franco, a elite política acreditava que Espanha ainda podia impor a sua grande autoridade de potência mas, com a morte do ditador em 1975, a ilusão de um império mundial espanhol também desapareceu.
“A última carruagem do comboio da Europa”

Em 1976, os antifranquistas optaram definitivamente pela Europa. Ao decidirem distanciar-se das pretensões imperiais da Espanha, perceberam que deviam juntar-se à Comunidade Europeia. Preferiam, como eles próprios diziam, “estar na última carruagem do comboio da Europa do que ser a líder da América hispânica”.

A adesão à Europa significou uma democratização e uma modernização de Espanha. O PSOE [Partido Socialista Operário Espanhol] foi reanimado por capitais alemães e o PCE [Partido Comunista Espanhol] que, em 1976, era de longe o maior partido dos trabalhadores, não resistiu ao eurocomunismo. Os franquistas fundaram um partido, o Partido Popular [PP, atualmente no poder], que acolheu com entusiasmo a democracia liberal. Foram construídos ou modernizados caminhos (de ferro) com a ajuda dos fundos europeus. A Catalunha e o País Basco tiveram a oportunidade de se desenvolverem económica e culturalmente. A cidade olímpica de Barcelona (1992) e o Museu Guggenheim de Bilbau (1997) foram os orgulhosos símbolos de um desenvolvimento económico e social espetacular nas regiões autónomas.

Quem conheceu a Espanha de Franco só pode estar surpreendido com as evoluções políticas e económicas que tiveram lugar ao longo dos últimos trinta anos. O país conseguiu isso com o apoio da UE mas também, em grande parte, apoiando-se nas suas próprias forças. O produto interno bruto dobrou ao longo dos dez primeiros anos após a adesão e voltaram a dobrar ao longo dos dez anos seguintes.
Uma alternativa para a Holanda

Durante o mesmo período, a economia holandesa conheceu uma expansão que, na verdade, foi um pouco menos rápida que a da Espanha, mas ainda assim considerável. Também para a Holanda a Europa foi uma alternativa geopolítica às suas aspirações imperiais. Mal a Segunda Guerra mundial acabou, a Holanda assistiu à luta pela independência dos nacionalistas indonésios. O império mundial holandês estava reduzido a proporções mínimas. Mas os políticos previdentes viram na colaboração europeia uma alternativa para a Holanda que, até ali, se tinha podido considerar uma “pequena grande potência”.

Naturalmente, isto também é válido para a Itália que, após o fracasso da conquista da Etiópia, foi obrigada a renunciar às suas pretensões imperiais e também ela deu consigo na “última carruagem do comboio da Europa”. Há 30 anos, o sistema político era dominado por dois partidos completamente corruptos, os democratas-cristãos liderados por Giulio Andreotti e os socialistas chefiados por Bettino Craxi. Dez anos depois, em 1994, esses partidos foram abandonados pelos seus eleitores. O PCI, o Partido Comunista Italiano, transformou-se em Partido Democrático em 1991. O MSI [Movimento Social Italiano], o partido fascista, passou a ser a Alleanza Nazionale [Aliança Nacional], um partido democrático (1995). Depois, surgiram a Liga do Norte e o Forza Italia de Berlusconi. É um milagre que o sistema parlamentar italiano imposto pelos aliados se tenha revelado estável. Essa estabilidade deve-se, tal como o crescimento económico, em parte não negligenciável, à cooperação europeia.
Berlusconi menos corrupto que Andreotti

É bem certo que Berlusconi é corrupto, mas em termos de amizades com mafiosos, não está certamente à altura de Andreotti e de Craxi. A legislação em que se apoia a condenação de Berlusconi foi outrora adotada para lutar contra a corrupção dos socialistas e dos democratas-cristãos. É, por isso, necessário rendermo-nos às evidências: para a Espanha, para a Holanda mas também para a Itália, a adesão à Europa foi um grande sucesso, tanto no plano geopolítico como económico.

O alargamento da UE à Europa Central inscreve-se num contexto completamente diferente. É a consequência imediata do desmantelamento da União Soviética. Para os países que sofreram o jugo comunista, a adesão à União Europeia representou uma libertação e, em certo sentido, um regresso ao berço.

É certo que podemos ter opiniões diferentes sobre, por exemplo, a introdução do euro, mas a ideia de que o projeto europeu falhou é, sob um ponto de vista histórico, um absurdo. Os opositores do projeto europeu são os anarco-nacionalistas. Aqueles a quem os alemães outrora chamavam os Kleinstaaterei.

 

Sem comentários:

Enviar um comentário