sexta-feira, 27 de outubro de 2017

As seis teorias da conspiração sobre o assassinato de JFK

Lee Harvey Oswald

Alienígenas. Maçons. Mafiosos. Duplos. O Homem do Guarda-Chuva. Um trabalho interno.
Muito antes de existirem fake news, houve o assassinato do Presidente John F. Kennedy e a imensidão de teorias da conspiração que se lhe seguiram. Um autor estimou que os teóricos da conspiração acusaram “42 organizações, 82 assassinos e 214 outras pessoas de estarem envolvidas no assassinato”. Segundo um inquérito de 2013, 62% dos americanos acreditam que aconteceu algo mais do que apenas a acção de Lee Harvey Oswald, sozinho num sexto andar sobre a Dealey Plaza em Dallas.

Com o anúncio de Donald Trump de que pretende abrir ao público o lote final dos arquivos secretos sobre o assassinato, os historiadores e os teóricos da conspiração prepararam-se ansiosamente para analisar os registos.

Será que os documentos adicionarão combustível às teorias da conspiração que ardem há mais de meio século, ou irão pelo contrário privá-las de oxigénio de uma vez por todas

Salvo alguma decisão em contrário de última hora por parte da Casa Branca, vamos descobrir rapidamente. Enquanto isso não acontece, eis algumas das mais prevalentes teorias da conspiração sobre o assassinato de JFK:

Múltiplos atiradores

Aquela que é talvez a teoria da conspiração mais duradoura de todas tem as suas origens não num qualquer lunático, mas na Câmara dos Representantes.

Uma semana após o assassinato, ocorrido a 22 de Novembro de 1963, o recentemente empossado Presidente Lyndon B. Johnson criou por ordem executiva a Comissão Presidencial Sobre o Assassinato do Presidente Kennedy – que ficou para a História como a Comissão Warren, nome derivado do seu presidente, o juiz do Supremo Tribunal Earl Warren.

Dez meses depois, a Comissão apresentou as suas descobertas: Oswald agiu sozinho, e o mesmo aconteceu com Jack Ruby, o empresário nocturno de Dallas que alvejou e matou Oswald dois dias após o assassinato de JFK.

Em 1976 – depois do caso Watergate ter abalado a fé dos americanos no governo e a exibição do filme de Zapruder ter permitido ao público ver o assassinato com os seus próprios olhos – a Câmara votou esmagadoramente a favor da criação de um comité que voltasse a investigar a morte de Kennedy, bem como a de Martin Luther King, assassinado em 1968.

Tal como a Comissão Warren, a investigação da Câmara dos Representantes não encontrou provas que implicassem a União Soviética, Cuba ou a CIA no assassinato de Kennedy. Contudo, o comité concluiu que “provavelmente” teria ocorrido uma conspiração, envolvendo um segundo atirador que estaria no infame “monte relvado”.

Essa hipótese foi desde então desacreditada, inclusivamente por reconstituições high-tech. Mas o mal estava feito.

A “grande contradição”, como lhe chamou um investigador de JFK, abriu a porta ao desenvolvimento de outras teorias da conspiração.

O Homem do Guarda-chuva


A mais famosa teoria que envolve múltiplos atiradores centra-se no “Homem do Guarda-Chuva”: uma figura vista a segurar misteriosamente um guarda-chuva preto no soalheiro dia do assassinato de Kennedy. Houve quem tenha especulado que o Homem do Guarda-Chuva disparou um dardo venenoso em direcção ao pescoço do presidente, imobilizando-o para permitir que Oswald, ou outros, disparassem o tiro mortal.

O filme JFK, de 1991, realizado por Oliver Stone e que alimenta as teorias da conspiração, mostra o Homem do Guarda-Chuva a fazer sinais aos seus cúmplices.

A realidade, no entanto, revelou-se bastante mais banal. Em 1978, 15 anos após o assassinato, Louie Steven Witt declarou perante o comité da Câmara dos Representantes que levara o guarda-chuva para provocar o presidente, não para o matar.

“Em algum momento a prova 405 conteve uma pistola ou arma de qualquer tipo?”, perguntou-lhe Robert Genzman, membro do comité, enquanto a audiência comparava o guarda-chuva de Witt com os diagramas de mecanismos secretos que disparavam dardos, ou balas, que os teóricos da conspiração haviam apresentado.

“Este guarda-chuva?”, perguntou um atónito Witt.

“Sim.”

“Não.”

Witt afirmou nem sequer ter tido conhecimento das teorias da conspiração relacionadas com o seu guarda-chuva até vários anos depois do assassinato, e que o guarda-chuva não passava de uma “piada sem graça” dirigida ao pai de Kennedy que tinha corrido monumentalmente mal (o guarda-chuva preto era a imagem de marca de Neville Chamberlain , primeiro-ministro britânico que tivera uma postura branda relativamente ao regime nazi, e que fora apoiado por Joseph Kennedy)

Umbrella Man, documentário de 2011 de Errol Morris, explora a maneira como, sob atenção microscópica, as coisas mais inócuas podem parecer sinistras.

“Se o Livro de Recordes do Guiness tivesse uma categoria para pessoas que fazem a coisa errada no momento errado no sítio errado, eu estaria em primeiro lugar”, disse Witt ao comité, “e a longa distância do segundo classificado.”

Um trabalho interno


Outra crença persistente é que as autoridades americanas estiveram de alguma forma envolvidas. Uma das teorias afirma que o tiro fatal foi disparado pelo motorista do carro de Kennedy, ao tentar disparar contra Oswald.

“Se olharmos para uma cópia de má qualidade do filme de Zapruder, parece que William Greer, o condutor, se vira e por cima do ombro dá um tiro na cabeça de Kennedy”, disse ao The Daily Beast John McAdams, autor de JFK Assassination Logic: How to Think about Claims of Conspiracy.

“Mas a verdade é que as suas mãos estão o tempo todo no volante; só nas cópias muito más do filme de Zapruder é que parece que não é assim.”

Uma teoria da conspiração mais generalizada é que a CIA – e até Lyndon B. Johnson – estiveram abominavelmente envolvidos.

Embora especialistas a tenham descartado como “ridícula” e “forçada”, essa teoria assumiu um papel central no filme de Oliver Stone. E foi também defendida por outro Stone: Roger Stone, o consultor político e confidente de Trump que persuadiu o presidente a abrir o acesso aos documentos sobre o caso.

“Percebo que mergulhar no mundo da pesquisa sobre o assassinato e da hipótese de uma conspiração possa levar a que olhem para mim como um extremista ou um lunático, mas os factos que eu descobri são tão convincentes que não me resta alternativa senão afirmar que Lyndon Baines Johnson foi o responsável pela morte de John Fitzgerald Kennedy, de modo se tornar presidente e a evitar o precipício político e legal em que estava prestes a cair”, escreveu Stone em The Man Who Killed Kennedy: The Case Against LBJ, publicado em 2013 e da co-autoria de Mike Colapietro.

(O livro, que acusa Johnson de cumplicidade em pelo menos seis outros assassinatos, cita também Richard Nixon, antigo chefe de Stone, que terá afirmado: “Eu e Lyndon queríamos chegar a Presidente, a diferença é que eu não seria capaz de matar por isso.”)

Sean Cunningham, professor de História da Universidade Texas Tech, diz que não há provas que sustentem essa teoria.

“Johnson dá uma boa história e serve de explicação fácil”, afirmou ao The Daily Beast.

Cubanos e soviéticos

De todas as teorias de conspiração em torno do assassinato de Kennedy, esta é a mais provável de ser impulsionada ou desmentida pelos documentos que serão brevemente divulgados.

Como relatado por Ian Shapira, do The Washington Post, os especialistas acreditam que muitos dos 3 100 documentos anteriormente inéditos se relacionam com a viagem de seis dias que Oswald fez à Cidade do México, dois meses antes do assassinato. Alguns crêem que Oswald recebeu ordens de agentes soviéticos ou cubanos enquanto lá esteve.

Oswald tinha emigrado para a União Soviética em 1959, onde ficou dois anos e meio antes de retornar aos Estados Unidos, quando a sua dissidência já não era notícia. Em Setembro de 1963 viajou para a capital mexicana, tendo visitado as embaixadas cubana e soviética, aparentemente numa tentativa de se mudar para um dos países comunistas.

“Um oficial soviético que Oswald alegadamente contactou, Valeriy Kostikov, não era um simples oficial do KGB, pertencia também ao Departamento 13 do KGB, que o relatório da CIA descreve como ‘o departamento encarregado da sabotagem e dos assassinatos’, escreveu o Post em 1993, altura em que foi revelado um outro lote de documentos secretos.

Os historiadores estão assim muito interessados em saber o que o último lote de ficheiros irá revelar sobre os movimentos e encontros de Oswald na Cidade do México.

“Sempre considerei a viagem ao México o capítulo oculto da história do assassinato. Muitas versões saltam esse período”, disse a Shapira Philip Shenon, ex-repórter do New York Times e autor de um livro sobre a Comissão Warren. “Oswald andava a encontrar-se com espiões soviéticos e cubanos, e a CIA e o FBI tinham-no sob vigilância apertada. Não dispunham o FBI e a CIA de provas cabais de que ele era uma ameaça antes do assassinato? Se tivessem agido com base nessas provas, talvez não tivesse acontecido o que aconteceu. Essas agências podem estar com medo de que, se os documentos forem revelados, a sua incompetência e os seus erros sejam expostos. Eles sabiam o perigo que Oswald era, mas não alertaram Washington.”

Segundo algumas teorias, as agências secretas americanas sabiam do plano de Oswald, e deixaram que este se concretizasse porque queriam Kennedy fora de cena.

A CIA e o FBI investigaram o suposto envolvimento cubano e soviético, mas não encontraram nada. E tanto a Comissão Warren como o comité da Câmara dos Representantes descartaram esse possível envolvimento. Os próprios especialistas torcem o nariz a esta hipótese, apontando para o facto de que ambos os países consideravam ser mais fácil trabalhar com Kennedy do que com o seu vice-presidente.

Uma outra teoria da conspiração defende que, quando Oswald se mudou para a União Soviética, o KGB treinou um duplo que assumiu a sua identidade e matou Kennedy. O homem por trás dessa hipótese chegou a conseguir convencer a viúva de Oswald a dar-lhe autorização para exumar os restos mortais, o que veio a acontecer a 4 de Outubro de 1981. A equipa que analisou o corpo concluiu, “para além de qualquer dúvida”, que era efectivamente Lee Harvey Oswald quem estava enterrado no cemitério Rose Hill, em Fort Worth.

A máfia

Nos dias que se seguiram ao assassinato do seu irmão, Robert Kennedy teve a sensação horrível de que o acontecido era culpa sua.

De acordo com o biógrafo Evan Thomas, “Robert Kennedy estava convencido de que, de alguma forma, era responsável pela morte do irmão. Que as suas tentativas de levar a máfia a tribunal e de matar Fidel Castro eram a causa, que tudo lhe tinha explodido nas mãos, como costuma dizer o pessoal das secretas.”

Não há, no entanto, quaisquer provas do envolvimento do crime organizado no assassinato do Presidente e, mais uma vez, os especialistas rejeitam essa possibilidade.

Ralph Salerno, ex-detective da polícia de Nova Iorque que investigou o envolvimento da máfia no âmbito da averiguação do comité da Câmara dos Representantes, disse ter analisado “milhares de páginas de vigilância electrónica sobre líderes do crime organizado, por todo o território dos Estados Unidos" relativas à altura do assassinato, sem ter ouvido nada que considerasse suspeito.

O pai de Ted Cruz


Se há alguém que gosta de uma boa teoria da conspiração, esse alguém é Donald Trump. E o então candidato não se coibiu de, no ano passado, dar à Fox News a sua visão sobre o que se passou.

Trump, que estava nesse momento a discutir com o senador do Texas Ted Cruz a nomeação presidencial do Partido Republicano, alegou que o pai do seu oponente, Rafael Cruz, tinha sido visto com Oswald pouco antes do assassinato.

“O pai dele esteve com Lee Harvey Oswald pouco antes de ele ter sido morto”, disse Trump numa entrevista por telefone. “Toda a situação é ridícula! O que é isto? Não tenho razão? Antes de ele ter sido morto. E ninguém fala nisso. Toda a gente sabe, e ninguém fala disso!”

Aparentemente, Trump estaria a referir-se a um artigo de Abril de 2016 da National Enquirer, que tinha como título Pai de Ted Cruz Ligado ao Assassinato de JFK! O artigo estava acompanhado por uma fotografia que, segundo o tablóide, mostrava Oswald e Rafael Cruz a distribuírem panfletos pró-Castro em Nova Orleães em 1963.

Mesmo depois de garantir a nomeação, Trump manteve a amplamente desacreditada história.

“Tudo o que fiz foi ressalvar o facto de que, na capa da National Enquirer, há uma fotografia dele [Rafael Cruz] e do maluco do Lee Harvey Oswald a tomarem o pequeno-almoço”, afirmou Trump. “Não tive nada a ver com isso. Estamos a falar de uma revista que, francamente, devia ser muito mais respeitada. Apanharam o O.J. Apanharam o [John] Edwards. Apanharam isto. Quer dizer, se fosse o New York Times, teria ganho o prémio Pulitzer.”

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Stephen Hawking divulgou tese de doutoramento 50 anos depois e o site de Cambridge não aguentou


Decisão foi tomada pelo próprio cientista. “Ao tornar livre o acesso à minha tese, espero inspirar pessoas em todo o mundo a olhar para cima, para as estrelas, e não para baixo, para os seus pés”, disse.



A tese de doutoramento de Stephen Hawking, escrita em 1966 quando este era ainda um estudante de 24 anos da Universidade de Cambridge, foi divulgada pela primeira vez. O interesse dos internautas foi tanto que o site da universidade ficou inacessível poucas horas depois da publicação do documento.

Citado pelo Guardian, Hawking explica que tomou a decisão de abrir o acesso à sua tese, intitulada Properties of Expanding Universes (Propriedades dos Universos em Expansão) para inspirar outras pessoas a investigarem os mistérios do universo: “Ao tornar livre o acesso à minha tese, espero inspirar pessoas em todo o mundo a olhar para cima, para as estrelas, e não para baixo, para os seus pés”. Desta forma, poderá simplesmente descarregar a tese completa em formatopdf e ler um dos trabalhos que ajudou Hawking a tornar-se um dos cientistas mais famosos e respeitados do planeta

A Universidade de Cambridge, por sua vez, diz que a tese é “histórica e irresistível”, acrescentando que durante meses recebeu centenas de pedidos para que o documento fosse divulgado na sua totalidade. Ora, depois de o fazer, à meia-noite de domingo, a tese de Hawking é já o artigo mais requisitado de todo o arquivo da instituição – que inclui cerca de 15 mil artigos de investigação, 10 mil imagens e 2400 teses.

A tese do cientista centra-se nas implicações da expansão do Universo. Uma das conclusões é a de que as galáxias não podem ser formadas através do “crescimento das perturbações que eram inicialmente pequenas”, como explica o jornal britânico.

“Tivemos uma enorme resposta à decisão do professor Hawking de disponibilizar a sua tese, com quase 60 mil downloads em menos de 24 horas”, disse um porta-voz da Universidade de Cambridge.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

OBRIGADO PEDRO PASSOS COELHO


Fernanda Câncio

Tenho lido nos últimos dias vários elogios a Passos Coelho. É normal. Compreensível que os adeptos e amigos lamentem a sua saída da liderança do PSD e mais compreensível ainda que queiram consolá-lo na derrota. Já mais difícil é aceitar o conteúdo de tais odes.
Dizem por exemplo que "tem uma ideia para o país" e que quis fazer reformas "necessárias", como a da segurança social e da saúde. Devo ter andado distraída porque só vi cortes e mais cortes, na maioria apresentados como "transitórios".
Não dei por qualquer proposta de reforma. E não se invoque como desculpa a obstaculização pelo Tribunal Constitucional porque quando este em agosto de 2014 chumbou a denominada "contribuição de sustentabilidade", apresentada em substituição da transitória CES (contribuição extraordinária de solidariedade), e que diminuía definitivamente as pensões de mais de mil euros, reconheceu a necessidade de uma reforma do sistema que assegurasse a "justiça intergeracional" enquanto verberava o executivo por só propor cortes cegos.
Recorde-se aliás que o governo Passos nomeou pelo menos dois grupos de "sábios" para estudar um projeto de reforma da SS -- e nada. O "pensamento" de Passos nesta área merece pois tanto respeito como aqueles papéis da "reforma do Estado" que encomendou a Portas e que ainda hoje nos fazem rir.
E quanto a ideia para o país, a tal que nos asseveram que tem? Conto variadíssimas, enjorcadas e contraditórias. Será a que traduziu nos ataques que fez em 2009 a Ferreira Leite, defendendo o governo Sócrates e a sua aposta no investimento público?
Ou a de 2010 e da revisão ultra liberal da Constituição que meteu ao bolso mal mergulhou a pique nas sondagens - na mesma época em que se dizia pela legalização do aborto, pelo casamento das pessoas do mesmo sexo, pela adoção por casais homossexuais e pela "legalização de todas as drogas" (modernices que abjurou a partir de 2011, votando contra a adoção por casais homossexuais e a legalização da canábis e tendo imposto "aconselhamento psicológico" compulsivo às mulheres que quisessem abortar e pagamento de taxa moderadora)?
Será a da justificação do chumbo do célebre PEC IV por "atacar a despesa social (...), recorrendo aos aumentos de impostos e cortes cegos na despesa (...)" apesar de estar perfeitamente ciente de que ao falhanço daquele plano se seguiria irremediavelmente o pedido de resgate e medidas muito mais gravosas?
Quiçá está plasmada no programa eleitoral do PSD, que já com o memorando da troika assinado ainda garantia que num governo chefiado por Passos "após PEC 1, 2 e 3, que impuseram sacrifícios a funcionários públicos, pensionistas e contribuintes em geral" a austeridade iria "incidir sobre as estruturas do Sector Público Administrativo, do Sector Empresarial do Estado e do "Novo Estado Paralelo", bem como através da reavaliação e reestruturação dos compromissos assumidos com as PPP"?
Ou na campanha, quando jurava que nunca mexeria no subsídio de Natal? Ou, ao invés, encontramos-la na efectiva governação PSD e nos cortes sobre cortes a salários de funcionários públicos e pensões, no aumento de impostos que até o seu ministro das Finanças assumiu ser sem precedentes e na proclamação sanguinária de "ir além da troika"?
Não sabemos, nem quem o elogia nos satisfaz a curiosidade sobre de qual dos Passos fala. Só nos garante que se trata de "uma pessoa séria e lisa". Percebe-se a tentação de, por contraste, passar certificados de seriedade a quem não esteja indiciado de corrupção, mas mantenhamos os critérios: poderá ser sério quem assim muda de discurso?
Pode ser séria a pessoa que em 2015 garantiu não ter entre 1999 e 2004 -- período em que, após sair do parlamento, trabalhou a recibos verdes para a Tecnoforma -- não pagando contribuições à SS porque "não sabia que tinha de o fazer"?
Que deputado e empresário seria este que não conhecia a legislação nem as obrigações fiscais básicas dos cidadãos? E que raio de lisura é a de quem mantém o apoio a um candidato autárquico que faz declarações racistas, acusando quem o critica por isso de "populismo e demagogia"?
Ou a de quem aceitou apresentar um livro de "segredos de políticos" e manteve a intenção após saber-se dos nojos que lá constavam?
Não, não há aqui espaço para recordar todas as "lisuras" de Passos cidadão, político e governante; falemos então da coragem que lhe atribuem, a "de impor sacrifícios para salvar o país".
Como é que compaginam isso com a alegação tantas vezes repetida de que todas as malfeitorias estavam inscritas no memorando assinado com a troika?
É que das duas uma: ou teve a coragem de impor algo a que não era obrigado ou só fez o que era obrigatório fazer por via de um programa negociado por outros.
Sendo que, como é sabido, o PSD participou ativamente na negociação entre Portugal e a troika (e por várias vias: António Borges era à época o chefe do FMI-Europa, posição em que ainda estava quando recomendou Vitor Gaspar para ministro das Finanças, e de onde saiu directamente para estratega-mor das privatizações).
Lamento: não tenho prazer em zurzir em quem está de saída, mas o que é demais é demais. Há porém um inestimável serviço ao país pelo qual Passos ficará na história -- uniu a esquerda. E isso sim, é obra.

Carta enterrada por prisioneiro em Auschwitz revela o terror nazi

"Somos reduzidos a 640 gramas de cinzas", o relato de um sobrevivente de Auschwitz
Foto Agency Gazeta/kuba Ociepa/reuters

Em 1944, um judeu de origem grega enterrou uma carta, no interior de uma garrafa térmica, numa floresta ao lado do campo de concentração de Auschwitz. O texto foi descoberto em 1980, num elevado estado de degradação. Um grupo de cientistas foi agora capaz de revelar os segredos escondidos na mensagem de Marcel Nadjar.

Todos os dias, Marcer Nadjari, juntamente com um vasto grupo de prisioneiros, era colocado a trabalhar em "Sonderkommando", uma das várias unidades de trabalho no campo de extermínios Nazi Auschwitz-Birkenau, a poucos quilómetros de Cracóvia, na Polónia, onde enfrentava um verdadeiro terror.

"Sofremos aquilo que nenhum humano pode imaginar", escreveu Nadjari numa carta revelada pelo "Deutsche Welle", que guardou secretamente em 1944, numa garrafa térmica envolvida numa bolsa de couro, mesmo ao lado do Crematório III, antes de o campo ser libertado, no início de 1945.

Carta escrita pelo prisioneiro


Carta escrita pelo prisioneiro


"Debaixo de um jardim, há dois quartos subterrâneos no porão: um serve para despir os prisioneiros, o outro é um câmara de morte", escreveu Nadjari na carta que fora descoberta acidentalmente.

Métodos de terror inimagináveis

No documento, o prisioneiro grego descreve como os seus colegas eram colocados como "sardinhas", assim que eram "enfiados" nas câmaras de gás, pelos guardas alemães. Era neste momento que Nadjari começava as suas funções.

"Depois de meia hora, tínhamos que abrir as portas e o nosso trabalho começava. Os corpos eram levados para os fornos dos crematórios, onde um ser humano ficava reduzido a 640 gramas de cinzas", pode ler-se no documento.

Para o historiador russo, Pavel Polin a raridade e importância das palavras de Nadjari, que eram praticamente impercetíveis quando foram descobertas, tornam-nas "bastante especiais". A carta é um dos nove documentos encontrados enterrados em Auschwitz. Os textos, escritos por um total de cinco prisioneiros, "são parte central da memória do Holocausto", disse o especialista.

Reconstrução do texto

Um estudante que estava a fazer escavações numa floresta junto às ruínas o crematório em Auschwitz-Birkenau descobriu as cartas no interior da termos. Tal como as mensagens de outros colegas, estavam escritas em Yiddish e apenas 15 por cento do texto era legível. "Estava enterrado há 35 anos em solo húmido e foi enviado para o museu do campo de concentração", disse Pavel Polin.

Em 2013, um jovem investigador russo passou um ano a trabalhar nos documentos, com ajuda de técnicas de análise de imagem multiespectral, dando o primeiro passo para que se tornassem conhecidos para o mundo. "Agora, podemos ler entre 85 e 90 por cento", disse Polian, que começou o projeto. Uma tradução para inglês e grego já está a ser desenvolvido e espera-se que esteja pronta em novembro,

Uma incrível história de sobrevivência

Nascido em 1917, Marcel Nadjari vivia em Tessalónica e foi deportado para o campo do terror em 1944. "Se lerem aquilo que fizemos, vão questionar como foi possível enterrar os nossos amigos judeus", escreveu. "Isso foi o que pensei ao início e penso muitas vezes", lê-se.

Bilhete de Tessalónica para AuschwitzFoto: Museu de Auschwitz

Depois da guerra, e sobrevivendo ao campo de concentração, regressou à Grécia e em 1951 emigrou para os EUA, onde acabaria por morrer em 1971, com 54 anos. Apesar de ter sobrevivido, nunca revelou aos mais próximos que tinha deixado estas notas enterradas.

Dos cinco prisioneiros que deixaram cartas no campo de concentração, o grego foi o único que falou abertamente sobre vingança."Não estou triste se morrer, mas porque não serei capaz de me vingar como queria", escreveu.

sábado, 16 de setembro de 2017

Excelente conteúdo para reflexão!


A entrevista do CEO da Mercedes Benz, publicada em 16 de julho de 2017.

" A nossa vida irá mudar dramaticamente nos próximos 20 anos, segundo o CEO da Mercedes. Em uma entrevista recente, Mr. Daimler Benz (Mercedes Benz) disse que seus concorrentes não são mais as outras companhias de carro, mas sim a Tesla (óbvio), Google, Apple e Amazon, considerando que:

1. Softwares irão quebrar a maioria das indústrias tradicionais nos próximos 5-10 anos;

2. Uber é apenas uma ferramenta de software, eles não possuem carros, e são agora a maior empresa de táxi do mundo;

3. Airbnb é agora a maior empresa hoteleira do mundo, embora eles não possuam quaisquer propriedades;

4. Inteligência Artificial: Computadores se tornam exponencialmente melhores em compreender o mundo. Este ano, um computador bateu o melhor Go player no mundo, 10 anos mais cedo do que o esperado;

5. Nos EUA, jovens advogados já não conseguem emprego. Por causa da IBM Watson, você pode obter aconselhamento legal (até agora para as coisas mais ou menos básicas) em poucos segundos, com uma precisão de 90% em comparação com uma precisão de 70% quando feito por seres humanos;

6. Então, se você estuda direito, pare imediatamente. Haverá 90% menos advogados no futuro, apenas especialistas permanecerão;

7. Watson já ajuda enfermeiros no dignostico de câncer, 4 vezes mais preciso do que os enfermeiros humanos. Facebook agora tem um software de reconhecimento de padrões que podem reconhecer rostos melhores do que seres humanos. Em 2030, os computadores se tornarão mais inteligentes do que os seres humanos;

8. Carros autônomos: Em 2018 os primeiros carros de auto condução estarão disponíveis para o público. Por volta de 2020, a indústria completa vai começar a ser interrompida. Você não vai querer ter um carro mais. Você vai chamar um carro com o seu telefone, ele vai aparecer no seu local e levá-lo ao seu destino. Você não vai precisar estacioná-lo, você só pagará pela distância percorrida e pode ser produtivo durante a condução. Nossos filhos nunca irão ter uma carteira de motorista e nunca vão possuir um carro;

9. Isso vai mudar as cidades, porque vamos precisar de 90-95% menos carros. Poderemos transformar antigos estacionamentos em parques. 1,2 milhões de pessoas morrem a cada ano em acidentes de carro em todo o mundo. Temos, agora, um acidente a cada 60.000 milhas (100.000 km), com a condução autônoma, esse número vai cair paraa 1 acidente em cada 6 milhões de milhas (10 milhões de km). Isso vai salvar um milhão de vidas por ano!

10. A maioria das companhias de carro provavelmente vão falir. Companhias de carro tradicionais tentam a abordagem evolutiva e apenas construir um carro melhor, enquanto as empresas de tecnologia (Tesla, Apple, Google) fazem a abordagem revolucionária e constróem um computador sobre rodas;

11.Muitos engenheiros da Volkswagen e Audi estão completamente aterrorizados pela Tesla;

12. As companhias de seguros terão dificuldade enorme, porque sem acidentes o seguro vai se tornar 100x mais barato. Seguros para automóveis irão desaparecer;

13. O mercado Imobiliário vai mudar. Porque se você pode trabalhar enquanto se desloca, já que os carros serão autônomos, as pessoas vão se mudar para mais longe e viver em um bairro mais bonito e quase rural;

14. Os carros elétricos vão se tornar tendência em 2020. As cidades serão menos barulhentas, porque todos os carros novos serão movidos a eletricidade. Eletricidade se tornará incrivelmente barata e limpa: produção Solar tem tido uma curva exponencial de 30 anos, agora você pode ver o impacto crescente;

15. No ano passado, mais energia solar foi instalada no mundo do que o combustível fóssil. As empresas de energia estão tentando desesperadamente limitar o acesso à rede para evitar a concorrência de instalações solares em casa, mas isso não pode durar. A tecnologia vai driblar essa estratégia;

16. Com eletricidade barata, vem a água abundante e barata. A dessalinização de água salgada agora, só precisa 2kWh por metro cúbico (@ 0,25 cêntimos). Não temos água escassa na maioria dos lugares, só temos água potável escassa. Imagine o que será possível se alguém pode ter tanta água limpa quanto quiser, por um custo muito baixo;

17. Saúde: O preço do Tricorder X será anunciado este ano. Existem empresas que irão construir um dispositivo médico (o chamado "Tricorder" do Star Trek), que funciona com o seu telefone, o que leva a digitalização da sua retina, sua amostra de sangue e respiração com ele;

18. Ele analisa 54 biomarcadores que irão identificar quase qualquer doença. Será barato, por isso em alguns anos todos neste planeta terão acesso a uma análise médica de classe mundial, quase de graça. Adeus, estabelecimento médico;

19. Impressão 3D: O preço da impressora 3D mais barata caiu dos US $ 18.000 para US $ 400 nos ultimos 10 anos. Ao mesmo tempo, tornou-se 100 vezes mais rápida. Todas as grandes empresas de calçados, já fazem sapatos com impressão 3D;

20. Algumas peças de avião já estão sendo impressas em 3D, em aeroportos remotos. A estação espacial agora tem uma impressora que elimina a necessidade da grande quantidade de peças de reposição, que costumava ter no passado;

21. No final deste ano, os novos smartphones terão possibilidades de digitalização em 3D. Você pode então digitalizar seus pés em 3D e imprimir o seu sapato perfeito em casa;

22. Na China, eles já construíram um edifício comercial completo de 6 andares com uma impressora 3D. Até 2027, 10% de tudo o que está sendo produzido será impresso em 3D;

23. Oportunidades de negócio: Se você pensar em um nicho que você quer ir, pergunte-se: "no futuro, você acha que vamos ter isso?" e se a resposta for sim, como você pode fazer isso acontecer mais cedo? Se não funciona com o seu telefone, esqueça a idéia. E qualquer idéia concebida para o sucesso no século 20, está fadada ao fracasso no século 21;

24. Trabalho: 70-80% dos empregos vão desaparecer nos próximos 20 anos. Haverá uma grande quantidade de novos postos de trabalho, mas não está claro se haverão novos empregos, suficientes em um pequeno período de tempo;

25. Agricultura: Haverá um robô agrícola de $100 no futuro. Agricultores nos países do 3º mundo poderão, então, tornar-se gerentes de seu campo em vez de trabalhar o dia todo neles;

26. Aeroponics vai precisar de muito menos água. O primeiro Petri prato de vitela produzido, já está disponível e será mais barato do que vaca vitela produzido em 2018. Agora, 30% de todas as superfícies agrícolas é utilizado para vacas. Imagine se nós não precisarmos de mais espaço. Existem várias startups que trarão proteína de inseto ao mercado em breve. Insetos possuem mais proteína do que a carne. Eles serão rotulados como "fonte de proteína alternativa" (porque a maioria das pessoas ainda rejeitam a idéia de comer insetos);

27. Existe um aplicativo chamado "Moodies", que já pode dizer em que humor você está. Em 2020 haverá aplicativos que podem dizer por suas expressões faciais, se você está mentindo. Imagine um debate político onde está sendo exibido quando eles estão dizendo a verdade e quando eles não estão?!

28. Bitcoin, pode mesmo tornar-se a moeda de reserva padrão ... do mundo!

29. Longevidade: Agora, a média de vida aumenta em 3 meses por ano. Quatro anos atrás, a vida costumava ser 79 anos, agora é 80 anos. O aumento em si é crescente e por 2036, haverá mais de um ano aumento por ano. Então, todos nós podemos viver por um longo tempo, provavelmente muito mais do que 100 anos;

30. Educação: Os smartphones mais baratos já estão em US$10 na África e Ásia. Em 2020, 70% de todos os seres humanos possuirão um telefone inteligente. Isso significa que, todo mundo tem o mesmo acesso à educação de classe mundial;

31. Cada criança poderá usar a Khan Academy para tudo, o que uma criança precisa aprender na escola em países do Primeiro Mundo. Já houve lançamentos de software na Indonésia e em breve haverão versões em árabe, Suaheli e chinês, ainda nesse ano. Eu posso ver um enorme potencial, se dermos o aplicativo em Inglês de graça, para que as crianças na África e em outros lugares, possam tornar-se fluentes em Inglês e isso poderia acontecer dentro de meio ano. "

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Para mais tarde recordar...

Por Paulo Morais

Uma das mais poderosas sociedades de advogados nacional, a PLMJ, foi recentemente investigada no caso da “Máfia do Sangue”. Um dos seus sócios foi mesmo constituído arguido. Dois dos seus mais proeminentes representantes são José Miguel Júdice e Nuno Morais Sarmento, ambos advogados, políticos e comentadores televisivos, na RTP e na TVI. Nos seus programas semanais, ambos fugiram ao tema escaldante da corrupção nos negócios do sangue, com a cumplicidade dos jornalistas que, embevecidos, os entrevistavam.

Este é um modelo que representa o “modus faciendi” das sociedades de advogados. Usam a sua posição de comentadores nas televisões a seu bel-prazer para defender os interesses dos seus clientes e camuflar a informação negativa. Exemplos de personalidades de tripla face (políticos, comentadores e advogados) são muitos. Temos, assim, António Vitorino, sócio da firma “Cuatrecasas” ou Marques Mendes, da todo poderosa “Abreu Advogados”.

Sociedade igualmente relevante no panorama português é a “Morais Leitão, Galvão Teles Soares da Silva e Associados”. Lança jovens na política e no Direito como os ex-governantes Assunção Cristas, Adolfo Mesquita Nunes ou Paulo Núncio. Ou o actual advogado/deputado do CDS Francisco Mendes da Silva. Os interesses dos seus clientes são defendidos no comentário político televisivo na SIC por Lobo Xavier que comenta toda a actividade política e económica sem que os telespectadores se apercebam das suas ligações ao Grupo Mota-Engil, ao BPI e a outros tantos interesses.

É também destas sociedades de causídicos que sai a legislação que mais prejudica os portugueses, como a das ruinosas parcerias público-privadas, elaborada na “Jardim, Sampaio, Magalhães e Silva”, a que dão corpo e nome os socialistas Vera Jardim e Jorge Sampaio. Vera Jardim, que debate na rádio com Morais Sarmento, da já citada PLMJ. E até os interesses estrangeiros mais obscuros são representados por estas sociedades. A “Uria Menendez” vem defendendo, através do todo-poderoso Daniel Proença de Carvalho os interesses de Eduardo dos Santos, Ricardo Salgado e Sócrates. Proença faz comentário político na rádio sem revelar quem serve. Preside à Administração do “Jornal de Notícias” e pode assim censurar as vozes incómodas aos negócios dos seus clientes.

As sociedades de advogados são, em Portugal, as irmandades perversas do regime, as verdadeiras sociedades secretas. Fazem Leis, dominam a política, condicionam a comunicação social. E os seus membros actuam disfarçados.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A doença da alma americana no tempo de Trump, segundo os National

Matt Berninger no 22º Festival Super Bock Super Rock, em 2016, concerto no pavilhão Meo Arena

Ao sétimo álbum de estúdio, os The National não conseguem evitar que a intimidade procurada pelas suas canções carregue uma catarse em reacção à eleição de Trump. Matt Berninger explica o que está por detrás do regresso destes profissionais da melancolia.

GONÇALO FROTA  8 de Setembro de 2017
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“I won’t fuck us over/ I’m Mr. November” canta Matt Berninger em Mr. November, canção intersecção entre The Smiths e R.E.M. que agitava as águas do álbum Alligator(2005). No mundo muito cifrado e frequentemente aleatório das letras do cantor dos The National, em que citações roubadas de outras letras servem muitas vezes de cola para as suas próprias ideias, Mr. November (alusão ao mês decisivo das eleições norte-americanas) tinha, na verdade, um destinatário concreto: o candidato presidencial John Kerry, derrotado por George W. Bush em 2004, e o sentimento de elevado desconforto que Berninger imaginava tomar conta de qualquer ser na posição de disputar a Casa Branca. “Deve ser tão stressante e irritante representar constantemente esse papel”, justificou o músico em entrevista à Vice.

Embora Kerry estivesse na mira mental de Berninger em 2005, seria com a primeira eleição de Barack Obama, três anos mais tarde, que o nome da canção seria estampado em t-shirts apelando ao voto no candidato democrata. Na mesma altura, uma versão instrumental de Fake empire seria usada num vídeo de campanha de Obama, graças a Jim Messina, director de campanha (e fã dos National) que levaria inclusivamente a banda a tocar em comícios do já então Presidente dos Estados Unidos em 2010 e na disputa pela sua reeleição em 2012, participando ainda em várias acções de campanha.
Os dois mandatos presidenciais de Obama coincidiram também com a ascensão dos National, de fenómeno de culto de canções macambúzias a um certo miserabilismo de estádio, espécie de U2 muito menos histriónicos, fazedores de temas com pendor para uma melancolia insuflada até ganhar trejeitos épicos. Boxer (2007), High Violet (2010) e Trouble Will Find Me (2013) trataram de cimentar essa posição e de fazer crescer o cancioneiro até caber nas grandes arenas de espectáculos.
Sleep Well Beast, o sétimo e novo álbum, encontrava-se em avançado estado de fermentação quando Donald Trump venceu as últimas eleições presidenciais. Embora a discografia dos National não seja propriamente marcada por um discurso militante, o impacto do facto político na vida criativa do grupo fez-se sentir de imediato. “Tínhamos 30 e tal canções, depois o Trump venceu e algumas delas começaram a parecer-nos estranhas”, confessa o vocalista Matt Berninger ao Ípsilon. “Aquelas que acabaram por formar Sleep Well Beast pareciam ter em comum um sentimento catártico, necessário depois da vitória do Trump. E depois houve temas escritos especificamente em resposta ao acontecimento e outros cuja letra foi reescrita, como The system only dreams in total darkness e Turtleneck, mas também Walk it back.”
Apesar de Berninger se referir à candidatura, à conquista de uma base de apoio e à vitória final de Trump como “um lento e traumático desastre que vimos aproximar-se” e que resultou num choque a 8 de Novembro de 2016 – “e no dia seguinte foi como se o céu se cobrisse de um chumbo cinzento”, diz –, o homem dos National não embarca na demonização fácil do Presidente e prefere referir-se-lhe como um sintoma do rumo que o país tem tomado nas últimas décadas. Daí que as canções de Sleep Well Beast, frisa, “tenham que ver com alguma consciência do que é a América, uma consciência que mudou radicalmente com a sua vitória”. “Penso que durante os últimos meses de preparação do disco houve uma reavaliação dos nossos fundamentos sociais muito significativa.”
Matt Berninger qualifica Donald Trump como “verdadeiro produto da América, e não uma anomalia — como o temos andado a tratar”
Essa mudança de fundamentos é descrita pelo músico como “uma verdade muito triste e dolorosa que está a vir à tona enquanto doença na alma americana e que testemunhamos no racismo e no sexismo”. Por isso qualifica Donald Trump de “verdadeiro produto da América, e não uma anomalia – como o temos andado a tratar”. “Temos estado a construir este monstro na nossa cave durante algum tempo e é muito humilhante. Mas acho que é bom percebermos quão cancerosas são algumas destas doenças que temos e quão profundamente podem estar instaladas. Não apenas na América, mas em todo o mundo – sexismo, racismo, repressão, um planeta moribundo. Estamos todos a lidar com um problema comum e que está mesmo à nossa porta.”

A doença diagnosticada por Berninger manifesta-se também na “aceitação de tanto disparate e das mentiras”. Algo que apenas acentua a sua crença de que “a América há muito tempo se encontra num lugar confuso acerca da sua História e das suas possibilidades”. E acusa os interesses corporativos de terem estado por detrás de todo este rastilho explosivo, convocando o medo do outro – e acentuando as diferenças de género, raciais, religiosas ou quaisquer outras. O inflamado e inflamável discurso político não é senão a face mais visível de um país numa intensa turbulência subterrânea.

Sleep Well Beast é, no entanto, um álbum que tem sido descrito pelo vocalista como versando sobretudo os altos e baixos de uma relação, em específico a vida a dois num casamento – talvez não tão específico a ponto de nos levar a pensar que se trata do seu (ainda que, aqui e ali, não recuse a existência de algumas falripas de realidade em temas como Guilty party, a que acresce ainda a curiosidade de a sua mulher dar uma ajuda na escrita, como que garantindo que a história, mesmo que ininteligível, não foge à verdade).


É sobretudo curioso averiguar como é que uma banda que dedica quase todos os seus versos à intimidade acaba por admitir a interferência dos acontecimentos políticos nessa esfera de reserva pessoal. Berninger não se esconde por detrás de generalizações e afirma que “quando falamos de política não estamos a falar dos políticos em si, de uma corrida de cavalos ou de um evento desportivo”. “Estamos a falar de pessoas que estabelecem regras para o planeta e para os nossos filhos.” E reflecte que já não vive a sua juventude, período em que o presente parece esticado até ao limite, sem fim à vista e com uma relação remota com a História – e em que o Civil Rights Movement da década anterior pode parecer um fenómeno do tempo da Antiguidade Clássica...

Com a idade, defende, passa a conseguir traçar-se uma linha entre causa e efeito, e o presente deixa de se assemelhar a uma ilha que se destaca de tudo quanto antes se passou. E por isso, ao ser pai de uma menina, e atentando à forma como “Donald Trump e as pessoas em Washington estão a tentar definir o que as mulheres podem dizer e fazer, quanto vale o seu trabalho em termos salariais e quanta liberdade podem ter com os seus corpos”, admite que “isso torna a política muito pessoal, sim: "Nem sei como é que alguém pode separar tudo isto.”

Matt Berninger não é, contudo, um homem iludido quanto ao papel que a música pode representar enquanto arma de combate. “O lugar que nos deu Woody Guthrie, Nina Simone, Bob Dylan e Joan Baez também votou Trump para Presidente e é impossível ligar esses dois pontos”, argumenta. Ou seja, tudo o que uma canção pode advogar e instigar é, afinal, muito pouco diante das forças (por vezes demasiado insondáveis) que gerem as emoções do povo na hora de colocar uma cruz num boletim de voto e decidir o futuro colectivo. “Uma banda rock pode criar música festiva, catártica”, reconhece, apontando ligeiramente em causa própria no que à catarse diz respeito. “Mas não acho que as canções possam criar mudanças políticas; acho sim que podem mudar um pouco os nossos corações e a forma como as nossas almas se compreendem. Ainda assim, não é algo tão poderoso quanto sair de casa e ir votar, ir falar com o nosso congressista e queixarmo-nos de coisas reais. Isso faz muito mais do que alguma canção rock alguma vez conseguirá.”

Discussões e nervosismos
Até há relativamente pouco tempo, Matt Berninger vivia com a sua família nos últimos dois andares da casa de Aaron Dessner, guitarrista e principal municiador de composições para os National. Bryce Dessner, irmão gémeo de Aaron, também guitarrista, teclista e compositor menos activo na vida do grupo (com uma carreira paralela na composição de música orquestral e de câmara contemporânea), vivia umas casas abaixo, na mesma rua. Durante um longo período, mesmo que as rotinas diárias fossem pouco coincidentes, a proximidade geográfica dos cinco National fazia com que a preparação de cada álbum resultasse num processo sem grumos.

Sleep Well Beast é o primeiro disco que os apanha a viver em diferente pontos do mundo (Los Angeles, Cincinatti, Long Island, Copenhaga e Paris), trabalhando a partir de uma permanente troca de ficheiros e obrigando à marcação de vários períodos concentrados de duas semanas – fizeram-no na Califórnia, em Paris e em Berlim – com sessões que se prolongavam facilmente madrugadas e manhãs adentro. “O facto de vivermos em cidades diferente levou a que construíssemos este disco mais colectivamente do que alguma vez tinha acontecido no passado”, garante o vocalista. “Teve o efeito oposto.”

A grande diferença – num álbum que percorre sem grandes acidentes de percurso a veia The Smiths do grupo num tema a puxar pela pompa como Day I die, que se veste de balada épica à moda dos U2 em Guilty party ou que carrega num rock cuspido em tons de Bad Seeds em Turtleneck – é que, desta vez, todos foram encorajados a tomar caminhos diferentes e a participar numa constante reinvenção das canções. Essa ruminação foi tão levada a sério que sessões inteiras de trabalho foram apagadas sem remorso e Matt só parou de reescrever as letras no momento de despachar o disco para as misturas. “Tornámo-nos muito temerários e muito soltos, não tomámos nada do que fizemos como demasiado precioso. Claro que tivemos muitas discussões, mas não há nenhuma canção rock que possa jamais magoar alguém fisicamente – emocionalmente talvez, e o objectivo até passa por aí.”

Sleep Well Beast é o primeiro disco que apanha os membros do grupo a viver em diferente pontos do mundo (Los Angeles, Cincinatti, Long Island, Copenhaga e Paris) GRAHAM MACINDOE

As letras saltitam entre cenários a toda a hora: “É tentar ser um bom pai, um bom marido, um bom amigo, um bom filho, encontrar equilíbrio, descobrir o que vai significar estar morto e o que fazer com isso enquanto se está vivo”

E que assuntos é que se discutem nos National? Pois bem, não tanto as canções. “Quando discutimos com alguém, fazemo-lo sobretudo acerca do facto de esse alguém não respeitar o quanto trabalhámos em algo ou não ver a mesma imagem abstracta daquilo que achamos que a canção deve ser”, defende. “Mas como em qualquer outra discussão, é sempre uma questão de nos sentirmos magoados ou desrespeitados por outra pessoa. Claro que nunca estamos verdadeiramente a discutir por causa de uma canção – isso seria ridículo. É sempre uma questão de ego, medo, raiva, receio de que a banda possa subitamente desaparecer, o pavor de nos podermos separar. O mesmo que acontece quando discutimos nos nossos casamentos ou nas nossas famílias, porque temos medo de perder alguém. Se nos irritamos com um irmão é porque nos preocupamos com ele. Não discutimos sobre canções – apenas fingimos que é sobre isso.”

Não sendo um álbum de ruptura em relação àquilo que conhecemos dos National – será até, porventura, um regresso ao sítio onde estavam há dez anos –, ouve-se em temas como I’ll still destroy you (um dos mais recompensadores de todo o registo) a mão de compositor de Bryce, seguidor de gente da vanguarda nova-iorquina como Philip Glass, Steve Reich ou os Bang on a Can, autor de vários quartetos de cordas para o Kronos Quartet. Matt diz que “Bryce nunca se sentiu desencorajado de trazer o seu mundo clássico para os National”, mas admite que este poderá ser um disco mais permeável a outras experiências exteriores ao grupo, e cita o exemplo do tributo aos Grateful Dead (Day of the Dead) em que os irmãos se empenharam durante quatro anos – “o Bryce e o Scott [Devendorf, baixista] são grandes fãs dos Dead e conhecem muito bem aquele material, mas terem tocado aquilo todos os dias, com aquele som, mudou-lhes qualquer coisa no circuito.”

Ainda assim, o vocalista não vê razão para se falar de uma maior disponibilidade para seguir por caminhos mais intrépidos. “Não me senti nada nervoso acerca do que estávamos a fazer”, diz, “e se estivéssemos a correr riscos penso que me teria sentido assim. Não estávamos muito preocupados com isso, não andávamos a dar high-fives uns aos outros por estarmos a ser incrivelmente aventureiros [risos]”. Todavia, e recordando a participação do grupo numa performance do islandês Ragnar Kjartansson, em que os National tocaram a canção Sorry durante seis horas seguidas (com uma pequena pausa para uma bucha), Berninger reconhece que as colaborações com diferentes artistas têm levado a que sintam mais confortáveis com a possibilidade da humilhação. “Humilharmo-nos é aquilo que deveríamos fazer – ou, pelo menos, arriscá-lo de cada vez que nos prestamos a alguma apresentação. Caso contrário, não é divertido de ver. Ninguém quer ver as pessoas à beira de um lago, quer é ver as pessoas a andar por cima do gelo fininho, que se pode quebrar a qualquer instante e fazê-las cair.”

Em Sleep Well Beast ouvem-se também uma maior preponderância de intromissões electrónicas, como em Walk it back, e um subtil ascendente rítmico que se estende a todo o disco. A combinação destes elementos – a electrónica temperada, os teclados melancólicos e as infiltrações da música orquestral – tem valido aos National o ocasional carimbo “Radiohead americanos”. Born to beg, do início ao fim, parece parida para confirmação desse estatuto oficioso.


E a verdade é que é fácil encontrar uma filiação inglesa nas canções da banda. Matt Berninger não o nega e lembra o dia em que a irmã levou para casa Louder than Bombs, compilação dos Smiths a roçar a perfeição, e percebeu que “havia um tipo de um lugar chamado Manchester, onde nunca tinha estado e do qual nada sabia, que se queixava das mesmas coisas” que o atormentavam. E que, ainda por cima, cantava sobre o que queria, pouco importado com o que terceiros pudessem achar disso. Matt cita ainda Joy Division, New Order e Wedding Present como referências fundamentais, junta-lhes Nick Cave, mas admite que é um pouco mais incestuoso do que isso nos seus gostos e rouba “a todos de igual maneira”.

Na sua cabeça, aliás, as canções dos National, nas quais reconhece uma inevitável marca d’água melancólica e especialmente propensa à tristeza – os malditos acordes menores dos irmãos Dessner, ri-se –, mudam constantemente de agulha. Num verso pode estar a cantar enquanto pensa num comboio atulhado de gente, para passados dois versos o seu banco de imagens o atirar para um passeio pelos bosques ou uma sala deserta, com uma mesa ao centro, desocupada, e daí saltar para uma mulher que trepa a uma árvore. As letras saltitam entre cenários a toda a hora. Mas Berninger resume-as sem dificuldade numa ideia de “tentar ser um bom pai, um bom marido, um bom amigo, um bom filho, encontrar equilíbrio, descobrir o que vai significar estar morto e o que fazer com isso enquanto se está vivo”. Outras vezes, são apenas sobre sexo e álcool. E, por baixo, um burburinho que nunca se cala e que é tanto a agitação de um homem quanto o eco da doença da alma americana.

domingo, 3 de setembro de 2017

O que é uma bomba de hidrogénio?

Primeiro há reacções de fissão nuclear e em seguida de fusão nuclear.
TERESA FIRMINO 6 de Janeiro de 2016

O primeiro teste de uma bomba de hidrogénio, em 1952 no atol de Eniwetok, nas ilhas Marshall, Pacífico

Numa bomba de hidrogénio, uma grande parte da sua energia é obtida através da fusão dos núcleos dos seus átomos – reacções que imitam o que se passa no interior das estrelas, como o nosso Sol, onde os átomos de hidrogénio se fundem, dando origem a átomos de hélio e libertando gigantescas quantidades de energia.

Mas para que os átomos de hidrogénio se fundam nesta bomba, também conhecida como "bomba H" ou "bomba termonuclear", primeiro tem de haver um outro tipo de reacções nucleares. Mais exactamente, reacções de fissão nuclear, ou cisão nuclear. Neste caso, o núcleo dos átomos (de urânio e plutónio) é partido, em vez de fundido, e é a energia libertada nestas primeiras reacções nucleares que permite depois desencadear as reacções de fusão dos núcleos de hidrogénio. Resumindo, primeiro há reacções de fissão nuclear e em seguida de fusão nuclear.

O resultado é uma bomba nuclear muito mais poderosa do que as bombas unicamente de fissão nuclear, como aquelas que foram lançadas pelos Estados Unidos sobre as cidades japonesas de Hiroxima e Nagasáqui em 1945.

Os principais pais da bomba de hidrogénio são Edward Teller e Stanislaw Ulam, que a desenvolveram para os Estados Unidos. O primeiro teste ocorreu em 1952, no atol de Eniwetok, nas ilhas Marshall, no Pacífico. O atol ficou totalmente destruído. Mike, como foi baptizada a primeira bomba H, tinha uma potência gigantesca: mais de dez milhões de toneladas de TNT. Ora uma bomba de hidrogénio com esta potência liberta 800 vezes mais energia do que a bomba lançada sobre Hiroxima.

Três anos depois dos Estados Unidos, a União Soviética fez explodir a sua primeira bomba de hidrogénio.


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A vida de Alice mudou no Verão de 1968


A jornalista e escritora Alice Vieira descobriu a tranquilidade da Costa Nova no ano em que assumiu um amor que, à época, era um escândalo. O mar continuou a fazer parte da sua vida.
BÁRBARA WONG 1 de Setembro de 2017

Foi o Verão que mudou a vida de Alice Vieira e o ano não podia ser mais simbólico: 1968. Em Maio, a jornalista do Diário Popular estava em Paris onde tudo se passava, as greves dos estudantes, as ocupações de fábricas por parte dos trabalhadores, e a vida de Alice era um turbilhão que culminou com o regresso a Portugal em Junho e na sua ida para a Costa Nova.

Alice Vieira aos 25 anos em 1968

“Vivíamos o Maio de 68 em Paris e, de repente, largo tudo para voltar à pátria… Tinha-me zangado com as pessoas… Amores!”, resume, sentada na sala da sua casa de Lisboa, rodeada de livros, fotografias, jogos e pequenas colecções como as dos faróis ou dos presépios. Em 1968 não era fácil estar apaixonada por um homem mais velho 23 anos e casado. “Nem a minha família, nem a dele nos falavam.” Por isso, esteve em França três anos – “arranjei maneira de ser correspondente” do jornal. “Quando mandávamos peças [notícias], não passavam na censura, não passava nada…”

Antes ainda da chegada à Costa Nova era preciso chegar a Lisboa e o coração de Alice estava tomado pelo desassossego, sem saber se o namorado a esperaria no aeroporto. "Não havia telemóveis e vivia-se uma greve geral." A TAP decidiu pegar nos passageiros de Paris, metê-los num autocarro e viajar até Bruxelas onde apanhariam o avião para Lisboa. Alice e Mário Castrim, o jornalista e crítico de televisão, podiam ter-se desencontrado e esse era o maior medo da jovem de 25 anos, que o partilhou, durante o voo, com uma perfeita desconhecida. “Estava desesperada e não sabia se ele estaria à minha espera. A minha cara era tão estranha que a senhora que estava ao meu lado perguntou-me o que se passava.” Depois de contar a sua história, a companheira de viagem, que era mulher do embaixador português em Paris, fez a jornalista prometer-lhe que se o namorado não estivesse à sua espera “ia com ela para casa”. Afinal, Alice, “menina de boas famílias lisboetas”, como se autodefine, não falava com a família e não podia regressar a sua casa. E se, acrescentou então Fedora Mathias, mãe do ex-embaixador Marcello Duarte Mathias, alguma coisa não correr bem, “telefone-me”.
Mário Castrim em 1968

Mas as coisas não podiam ter corrido melhor. Mário estava à espera de Alice, agarrou-a e levou-a para a Costa Nova. “Saltei de uma revolução com carros a arder para uma tranquilidade. Foi o Verão da minha vida porque eu vinha sem saber o que ia acontecer, estava muito apaixonada, mas uma coisa é estar apaixonada e outra é viver com uma pessoa. E foi extraordinário. Modificou a minha vida em tudo. Eu preciso de mar, de água... Mas também gostei muito do Maio de 68!”, acrescenta, dando uma enorme gargalhada.

As fotografias desses tempos tranquilos são poucas. Alice não gostava de ser fotografada. “Mas adorava tirar [fotografias], ainda hoje!”, conta enquanto sorri para o repórter fotográfico do PÚBLICO, obedecendo a todos os pedidos que ele vai fazendo. Há uma imagem que a autora deposita em cima da mesa, dela sozinha. Mas há outras, a do marido naquele mesmo ano ou dela com os filhos na Praia do Sul, na Ericeira.
Jogar matraquilhos e beber ginginha

Mário Castrim queria apresentar a namorada aos amigos. “Eram extraordinários.” Assim que chegaram, o médico e escritor Mário Sacramento preparava-se para viajar, virou-se para Alice e perguntou-lhe: “sabe guiar?” Perante a resposta positiva, deu-lhe as chaves do seu carro e rumou a Paris, onde ia para um congresso. “E nós andamos pelas praias todas. A Ria [de Aveiro] estava muito assoreada, era lama e água pelo meio. Foram os meses de Junho e Julho e foram muito importantes para conhecer outro tipo de praia e de Verão”, continua a escritora de Rosa, minha irmã Rosa ou de Viagem à roda do meu nome, cuja acção se passa na Ria de Aveiro. “Fiquei sempre ligada à Costa Nova.”

Alice Vieira com os filhos em 1972

Em criança, Alice e os irmãos iam para o Guincho, em Cascais. Antes de saírem de casa, os tios ligavam para uma tasca na praia e perguntavam como estava o tempo. “Mesmo que estivesse mau, nós íamos na mesma! Às 11h vinha o banheiro, o senhor António, púnhamos os dedos no nariz e ele atirava-nos para a água. Foi assim que aprendemos a nadar!”, ri. Mais tarde, a tia decidiu que os banhos seriam na Ericeira, uma visão estratégica de quem queria casar a menina com algum oficial que estivesse no quartel, em Mafra. “Se eles fossem aos bailes na Ericeira, podia ser que arranjasse um namorado.”

As ondas não são menos altas nem frias na Costa Nova, reconhece Alice, mas era uma maneira diferente de fazer praia que no Guincho ou na Ericeira. “Tem um mar mau, mas do outro lado tem a ria. Apanhávamos um barquito e íamos para uma tasca, A Bruxa, jogar matraquilhos e beber ginginha”, conta. Foi lá que a escritora se habituou a ir à água às 8h30 – “até os ossos rangiam!”. O hábito perdura até aos dias de hoje. “Gosto das manhãs e do seu sol tímido.” Mas também gosta “muito das esplanadas”. Aliás, fazer praia significa estar na esplanada. 

palheiros em Ílhavo

Na família falar “da Costa”, não é fazer referência à Costa Caparica, como para o comum dos lisboetas, mas da Costa Nova. E depois dos filhos nascerem o casal continuou a rumar a Norte. “A família do meu marido tinha lá um palheiro onde ficávamos.” E ir para a Costa requeria uma logística que incluía ficar uma noite pelo caminho, em Albergaria. “O meu marido gostava muito de ir para lá, onde tinha os seus amigos. Foi sempre a nossa praia enquanto eles [os filhos] eram pequenos. Depois cresceram.”

Pouco a pouco, deixaram de fazer o caminho que separa Lisboa da Ria de Aveiro e iam ficando mais por perto, por Cascais, onde a família tem casa. “Dava-nos mais jeito”, justifica.

Depois disso, Alice regressou uma e outra vez à Costa Nova. Telefonava a alguém e perguntava: “O comandante Tadeu? Ah, já morreu… E o fulano de tal? Também…” Os amigos – mais velhos, tal como Mário Castrim, que era de Ílhavo – foram desaparecendo. Mas gosta sempre de lá voltar, garante, recordando que a identidade da Costa Nova também contempla a pesca do bacalhau – “o meu sogro era comandante de um arrastão”, informa – e a agricultura. Alice recorda que há uma cidade portuária no Norte da Alemanha, Cuxhaven, que é geminada com Ílhavo e que quando lá esteve, a convite das escolas para apresentar os seus livros, servia-se bacalhau e vendiam-se conservas, como cá. "Cheirava a Portugal."

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Pedro Barroso confessa que não consegue ser “gay” mas que se sente bem assim


António Pedro da Silva Chora Barroso

POEMA

O cerco

Venho aqui pedir desculpa
de não ser evoluído,
apesar destas campanhas
na rádio, na televisão,
em toda a parte, insistindo
na urgência do assunto…
Eu não consigo gostar;
- não consigo mesmo, pronto.
Sei que pertence ser gay,
toda a gente deve ser.
Mas eu, lamentavelmente
não sou como toda a gente;
Como aconteceu... não sei,
peço desculpa por isso,
mas confesso: sou… diferente.
Sei que vos pode ofender
esta minha enfermidade,
pois um gajo que assim pensa
hoje em dia, não tem nexo;
deveria ser banido,
expulso da comunidade.
É uma vergonha indecente
Gostar de mulher, ter filhos
Casar, afagar, perder-se
Com pessoa doutro sexo!
Uma nojeira repelente;
Dar-lhe, até, beijos na boca
em público! E declarar
Esta sua preferência
Que eu nem sei classificar!
Tenho uma vergonha louca
E desejo penitência
por tal desconformidade,
retardamento, machismo,
doença, fatalidade!
Já tentei tudo: - inscrevi-me
em saunas, aulas de dança
cursos de perfumaria
origami, greco romana,
ioga - para ter ousadia
boxe - p’ra ganhar confiança...
Mas quando chega o momento
De optar… sou… decadente,
Recorrente e insistente.
Opróbrio raro e demente,
Ver uma mulher seduz-me,
Faz-me vibrar, deslumbro.
Vê-la falar, elegante;
Vê-la deslizar, sensual
Como vestal, deslumbrante
Seu peito assim, saltitante
Sua graça embriagante
olho com gosto, caramba,
lamento ser tão ...normal.
Mas eu confesso que sinto
- neste corpo tão cansado
Que da vida já viu tanto...
Ainda sinto um desejo
Que m’ envergonha bastante
Por ser já tão deslocado
tão antigo, assim tão fora
do mais moderno critério.
Valia mais estar calado
Mas amigos, já agora
Assumo completamente:
- Tenho esse problema sério.
Nunca integrarei partidos
Onde não sou desejado.
No planeta das tais cores
não tenho dia aprazado,
nem bandeira, nem veado,
nem “orgulho” especial!
Sou mesmo do “outro lado”
dito “heterossexual”
e já me chateia um bocado
Ter que dizer, embaçado,
que me atrai o feminino
e sou apenas “normal”!
- e, portanto, avariado.
Mas… mesmo assim, - saudosista,
imensamente atrasado,
terrivelmente cercado,
conservador nesse ponto,
foleiro, desajustado...
perdoai-me tal pecado
- Não me sinto ...assim tão mal!

Muito , Muito Bom !


Quando um pássaro está vivo, ele come as formigas, mas quando o pássaro morre, são as formigas que o comem a ele.

Tempo e circunstâncias podem mudar a qualquer minuto. Por isso, não desvalorize nada em sua volta.

Você pode ter poder hoje, mas, lembre-se: O tempo é muito mais poderoso que qualquer um de nós!

Saiba que uma árvore faz um milhão de fósforos, mas basta um fósforo para queimar milhões de árvores. Portanto, seja bom! Faça o bem!

"O tempo é como um rio. Você nunca poderá tocar na mesma água duas vezes, porque a água que já passou, nunca passará novamente.

Aproveite cada minuto de sua vida e lembre-se: Nunca busque boas aparências, porque elas mudam com o tempo. Não procure pessoas perfeitas, porque elas não existem. Mas busque acima de tudo, um alguém que saiba o seu verdadeiro valor."

Tenham 3 amores: 

- A Vida;

- A Família;

- Os Amigos.

A vida porque é curta;

A família porque é única;

E os amigos porque são raros!

sábado, 22 de julho de 2017

O Paquete "Carvalho Araújo" (1930-1973)

O paquete “Carvalho Araújo” foi um dos navios que mais tempo e melhor serviu os açorianos através das imensas viagens que fez de Lisboa para as diversas ilhas dos Açores e vice-versa, com passagens pelo arquipélago da Madeira. Navegou entre 1930 e 1970.
Pertenceu à “Empresa Insulana de Navegação” que o mandou fazer na Itália, para efectuar, especialmente, com regularidade mensal, aquelas viagens rotativas. Substituiu nesse serviço o navio “São Miguel”, propriedade da mesma empresa.
E 2 de Janeiro de 1930, o jornal “O Telégrafo” da cidade da Horta, dava a seguinte notícia: «Partiram para Trieste [Itália] onde foram assistir ao lançamento ao mar do navio a vapor da Empresa Insulana, o sr. Vasco Bensaúde e esposa, que será a madrinha da nova unidade, e o sr. F. Brito do Rio respectivamente director e chefe de serviços desta empresa».
«Foram convidados a assistir o cônsul geral de Portugal em Génova e o cônsul e vice-cânsul em Trieste».
«O vapor que foi lançado ao mar em 16 de Dezembro, deverá ser entregue pronto em 28 de Fevereiro, e poderá talvez fazer a sua primeira viagem à Madeira e Açores em 22 de Março próximo» (1).
Contrariamente ao que aqui foi noticiado, a primeira viagem do navio “Carvalho Araújo” apenas teve lugar em Maio, certamente devido a problemas de acabamentos e de recrutamento da respectiva tripulação.
No seu excelente livro, “Paquetes Portugueses”, Luís Miguel Correia escreve que o lançamento à água do paquete “Carvalho Araújo” foi efectuado no dia 17 de Dezembro de 1929 (2). Ilustrando o seu trabalho sobre esse paquete com excelentes fotografias, situação que também acontece com os outros paquetes portugueses inseridos nesse trabalho, o autor refere que «O “Carvalho Araújo” chegou a Lisboa, vindo do estaleiro, em 19 de Março de 1930, largando para a viagem inaugural à Madeira e aos Açores a 23 de Abril de Abril seguinte» (2).
Conforme se pode ver naquele livro, de que nos servimos com a devida deferência para enriquecer este artigo, as principais características do referido paquete eram as seguintes: Comportava 4560 toneladas, tinha 112,82 metros de comprimento,
15,30 m de boca, 2 máquinas a vapor, 2 hélices e a velocidade máxima de 14 nós. Tinha capacidade para 78 passageiros de 1.ª classe, 78 de 2.ª e 98 de 3.ª, podendo embarcar nas cobertas 100 passageiros de 3.ª classe (apenas com direito ao refeitório). Esclarece-se que esta solução, face à pobreza existente no tempo, era a mais utilizada pelos açorianos, onde eu cheguei a viajar, na minha juventude.
Durante a sua longa carreira, em viagens entre Lisboa, a Madeira e os Açores, o paquete “Carvalho Araújo” servia com bastante assiduidade as populações das ilhas desses arquipélagos. Transportava passageiros e cargas, como convinha naquele tempo às referidas ilhas. Trazia-nos mercadorias de Lisboa, com excepção de combustíveis, e levava-nos para lá o nosso gado, o óleo de baleia e as algas marinhas, bem como outros produtos menos significativos. Nalgumas ilhas escaladas o paquete “Carvalho Araújo”, alternava as suas viagens com outros navios da EIN, designadamente com o paquete “Lima”, o “Cedros” e o “Ponta Delgada” passando por portos diferentes. Sempre que o tempo o permitia, o “Carvalho Araújo” passava pelos portos de Porto Santo, Funchal, Vila do Porto, Ponta Delgada, Angra do Heroísmo, Santa Cruz da Graciosa, Velas de S. Jorge, S. Roque Pico, Horta, Corvo, Santa Cruz das Flores e Lajes das Flores, regressando a Lisboa e escalando os mesmo portos.
Nas suas viagens quase regulares, o paquete “Carvalho Araújo” transportou diversas entidades importantes das quais distinguimos algumas.
Nos últimos dias de Julho e primeiros de Agosto de 1941, o Presidente da República, General António Óscar Fragoso Carmona (1869-1951), que visitou as ilhas então ditas Adjacentes, dos arquipélagos da Madeira e dos Açores. Nas ilhas do Corvo e das Flores a visita do Chefe do Estado teve lugar no dia 4 de Agosto de 1941. Foi o primeiro Chefe do Estado que visitava essas ilhas, trazendo consigo larga comitiva com ministros e outras altas individualidades. O desembarque no Corvo teve lugar na parte da manhã e nas Flores (apenas em Santa Cruz) na parte da tarde. Os analistas políticos afirmavam que Salazar havia instituído essa viagem – que se fazia em plena II Guerra Mundial, com os submarinos alemães a torpedearem navios de passageiros no Oceano Atlântico – para provar ao mundo que as tropas do “Eixo” não eram tão agressivas como se afirmava (3).
Em 1942 o referido paquete transportou o Padre Cruz, Francisco Rodrigues da Cruz (1859-1948), alta figura da Igreja Católica desse tempo, que muitos fiéis afirmavam poder vir a ser elevado aos altares, graças à sua bondade e às demais qualidades que ostentava. A visita à ilha das Flores fez-se em 31 de Agosto, tendo desembarcado em Santa Cruz das Flores, onde celebrou Missa, na sua missão evangélica, enquanto que nas Lajes, devido ao estado do mar, as autoridades civis e religiosas, com as crianças da catequese, foram cumprimentá-lo à 1.ª classe do referido paquete (4).

No ano de 1948, na sua viagem de Junho/Julho, a figura de honra importante no “Carvalho Araújo” foi a imagem de Nossa Senhora de Fátima que, acompanhada de adequada comitiva, visitou pela primeira vez as chamadas “Ilhas Adjacentes”, na sua primeira visita a essa ilhas. No Corvo e nas Flores, Santa Cruz e Lajes, as visitas tiveram lugar em 2 de Julho (5).
Em Julho de 1957 o paquete “Carvalho Araújo” antecipou a sua saída de Lisboa para transportar o então Presidente da República, General Francisco Higino Craveiro Lopes (1894-1964) e a sua comitiva. Afirmou-se que, como Salazar pretendia correr com ele do poder, “mandou-o” visitar as ilhas da Madeira e dos Açores. No Faial a visita fez-se no dia 24 de Julho (6).

Em Julho 1962, também transportou o Presidente da República, Vice-Almirante Américo de Deus Rodrigues Tomás (1894-1987), bem como a respectiva comitiva, sendo a visita ao Distrito da Horta efectuada entre os dias 11 a 14 desse mês (7).

Aquele distinto autor, Luís Miguel Correia”, mais à frente, escreve que «o “Carvalho Araújo” terminou a ultima viagem aos Açores em 2 de Março de 1970, passando a ser utilizado no transporte de tropas para a Guiné (8)». Refere também que esse paquete, depois dessas viagens, em 8 de Janeiro 1971 foi imobilizado no Tejo até ser vendido a «sucateiros espanhóis, saindo de Lisboa a 20 de Outubro de 1973, a reboque, com destino a Aviles onde entrou em 27 de Outubro (9)». Escreve também que foi alterado «o nome deste velho paquete em 1 de Março de 1972 para “Marcéu”».
Durante o século XX, nenhum navio serviu os açorianos com a eficiência, a regularidade e a duração com que o paquete “Carvalho Araújo o fez, inclusive por ocasião da II Guerra Mundial, salvo raras excepções.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Eucaliptos


Prof. Jorge Paiva, Biólogo Universidade de Coimbra in Público, 2006.

"Antes da última glaciação, Portugal estava coberto por uma floresta sempre-verde (laurisilva). Durante essa glaciação a descida drástica da temperatura fez desaparecer quase por completo essa laurisilva, tendo sido substituída por uma cobertura florestal semelhante à actual taiga. Após o período glaciar, a temperatura voltou a subir, ficando o país com um clima temperado como o actual. Assim, a floresta glaciar foi substituída por florestas mistas (fagosilva) de árvores sempre-verdes (algumas delas relíquias da laurisilva) e outras caducifólias, transformando o país num imenso carvalhal caducifólio (alvarinho e negral) a norte, marcescente (cerquinho) no centro e perenifólio (azinheira e sobreiro) para sul, com uma faixa litoral de floresta dominada pelo pinheiro-manso e os cumes das montanhas mais frias com o pinheiro-da-casquinha (relíquia glaciárica). Por destruição dessas florestas, particularmente com a construção das naus (três a quatro mil carvalhos por nau) durante os Descobrimentos (cerca de duas mil naus num século) e da cobertura do país com vias férreas (travessas de madeira de negral ou de cerquinho para assentar os carris), as nossas montanhas passaram a estar predominantemente cobertas por matos de urzes ou torgas, giestas, tojos e carqueja. A partir do século XIX, após a criação dos "Serviços Florestais", foram artificialmente re-arborizadas com pinheiro-bravo, tendo-se criado a maior mancha contínua de pinhal na Europa. A partir da segunda década do século XX, apesar dos alertas ambientalistas, efectuaram-se intensas, contínuas e desordenadas arborizações com eucalipto, tendo-se criado a maior área de eucaliptal contínuo da Europa. Sendo o pinheiro resinoso e o eucalipto produtor de óleos essenciais, produtos altamente inflamáveis, com pinhais e eucaliptais contínuos, os incêndios florestais tornaram-se não só frequentes, como também incontroláveis. Desta maneira, o nosso país tem já algumas montanhas transformadas em zonas desérticas.Sempre fomos contra o crime da eucaliptização desordenada e contínua. Fomos vilipendiados, maltratados, injuriados, fomos chamados à Judiciária, etc. Mas sabíamos que tínhamos razão. Infelizmente não vemos nenhum dos que defenderam sempre essa eucaliptização vir agora assumir as culpas destes "piroverões" que passámos a ter e que, infelizmente, vamos continuar a ter. Também sempre fomos contra o delapidar, por sucessivos Governos, dos Serviços Florestais (quase acabaram com os guardas florestais). Isso e o êxodo rural (os eucaliptos são cortados de 10 em 10 anos e o povo não fica 10 anos a olhar para as árvores em crescimento tendo, por isso, sido "forçado" a abandonar as montanhas e a ficar numa dependência económica monopolista, que "controla" o preço da madeira a seu belo prazer) tiveram como resultado a desumanização das nossas montanhas pelo que, mal um incêndio florestal eclode, não está lá ninguém para acudir de imediato e, quando se dá por ele, já vai devastador e incontrolável.Infelizmente vamos continuar a ter "piroverões" por mais aviões "bombeiros" que comprem ou aluguem. Isto porque, entre essas medidas, não estão as duas que são fundamentais, as que poderiam travar esta onda de incêndios devastadores que nos tem assolado nas últimas décadas. Uma, é a re-humanização das montanhas, que pode ser feita com pessoal desempregado que, depois de ter frequentado curtos "cursos de formação" durante o Inverno, iria vigiar as montanhas, percorrendo áreas adequadas durante a Primavera e Verão. A outra medida fundamental seria, após os incêndios, arrancar logo a toiça dos eucaliptos e replantar a área com arborização devidamente ordenada. Isto porque os eucaliptos rebentam de toiça logo a seguir ao fogo, renovando-se a área eucaliptada em meia dúzia de anos, sem grande utilidade até porque o diâmetro da ramada de toiça não é rentável para as celuloses. Mas como tal não se faz, essa mesma área de eucaliptal torna a arder poucos anos após o primeiro incêndio e assim sucessivamente. Muitas vezes, essas mesmas áreas são também invadidas por acácias ou mimosas, bastando para tal que exista um acacial nas proximidades ou nas bermas das rodovias, pois as sementes das acácias são resistentes aos fogos e o vento ajuda a dispersá-las por serem muito leves. As acácias, como são heliófitas (plantas "amigas" do Sol), e não havendo sombra de outras árvores após os incêndios, crescem depressa aproveitando a luminosidade e ocupando aquele nicho ecológico antes das outras espécies se desenvolverem.Mas como vivemos numa sociedade cuja preocupação predominante é produzir cada vez mais, com maior rapidez e o mais barato possível, as medidas propostas são economicamente inviáveis por duas razões: primeiro, porque é preciso pagar aos vigilantes e respectivos formadores; segundo, porque arrancar a toiça dos eucaliptos é muito dispendioso (custa o correspondente ao lucro da venda de três cortes, isto é, o lucro de 30 anos). É bom também elucidar que os eucaliptais só são lucrativos até ao terceiro corte (30 anos). Depois disso, estão a abandoná-los, o que os torna um autêntico "rastilho" ou, melhor, um terrível "barril de pólvora", áreas onde os seus óleos essenciais, por vaporização ao calor, são explosivos e, quando a madeira do eucalipto começa a arder, provocam a explosão dos troncos e respectiva ramada, lançando ramos incandescentes a grande distância. Este "fenómeno" tem sido bem visível nos nossos "piroverões".Por outro lado, pelo menos uma destas medidas (arranque da toiça e re-arborização ordenada) não tem resultados imediatos mas a longo prazo. Por isso os governantes não estão interessados na aplicação dessas medidas, pois interessa-lhes mais resultados imediatos (as eleições são de quatro em quatro anos...) do que de longo prazo.Assim, sem resultados imediatamente visíveis e com uma despesa tão elevada, os governos nunca vão adoptar tais medidas. Preferem gestos por vezes caricatos, como distribuir telemóveis aos pastores, mas que nunca não acabarão com os "piroverões".Finalmente, após a referida delapidação técnica e funcional dos Serviços Florestais (antigamente, os incêndios florestais eram quase sempre apagados logo no início e apenas pelo pessoal e tecnologia dos Serviços Florestais), esqueceram-se da conveniente profissionalização e apetrechamento dos bombeiros, melhor adaptados a incêndios urbanos.Se os nossos governantes continuarem, teimosamente, a não querer ver claramente o que está a acontecer, caminharemos rapidamente para um amplo deserto montanhoso, com a planície, os vales e o litoral transformados num imenso acacial, tal como já acontece em vastas áreas de Portugal."