sexta-feira, 28 de outubro de 2022

E se for uma mulher a liderar uma limpeza étnica?

 

Giorgia Meloni

Deve o feminismo celebrar a chegada ao poder de mulheres antifeministas? Aqui, a resposta é não.



Carmo Afonso 28 de Outubro de 2022

Uma mulher tem os mesmos direitos que um homem e, nesse elenco, está certamente o direito a defender posições antifeministas. Tem igualmente a possibilidade, e o direito, de chegar ao poder – e refiro-me aos mais altos cargos políticos executivos – defendendo essas posições antifeministas.

A extrema-direita normalmente inclui o antifeminismo declarado. Sabemos bem o que significa o “Deus, pátria e família” e, dúvidas houvesse, são várias as mulheres ligadas aos partidos políticos de extrema-direita que se assumem como sendo antifeministas. Por cá, temos o exemplo da deputada do Chega Rita Matias.

Importa perguntar se estão no seu direito de assumir cargos de responsabilidade política enquanto se assumem como antifeministas. E a resposta é afirmativa. Devem essa oportunidade à luta de milhares de mulheres que começaram por lutar pelo direito ao voto, mas que nunca pararam de se bater pela igualdade entre homens e mulheres. É uma luta que continua e está bem presente. Estamos muito longe da igualdade que se pretende.

Acontece que outra pergunta tem de ser feita: deve o feminismo celebrar a chegada ao poder de mulheres antifeministas? E aqui a resposta é não. O feminismo não é uma luta por direitos individuais ou por sucessos individuais de qualquer mulher. Trata-se de uma luta coletiva. Isto significa que se regozija com os progressos que façam a diferença na vida das mulheres, na sua globalidade, e que nunca – e aqui é mesmo nunca – celebrará o poder de quem se opõe à causa feminista. Não se trata de zelar pelo interesse próprio, mas sim de zelar pelo de todas as mulheres.

Este tema surge ainda na sequência de Giorgia Meloni ter alcançado a posição de primeira-ministra de Itália. O debate prosseguiu. Defendem as feministas liberais – e os liberais de um modo geral – que nos devemos, como fez Ursula von der Leyen, alegrar com essa vitória de Meloni. Alegam que uma mulher não deve passar pelo crivo da pureza ideológica para chegar ao poder; que não lhe devem ser impostas condições porque essa imposição seria antifeminista ou mesmo machista. Esta é a posição defendida por uma articulista deste jornal, Susana Peralta.



Existe uma grave falha neste raciocínio e é importante que falemos sobre isso. Está aqui em causa dissociar o feminismo de uma ideia de virtude e da sua vocação coletiva. Há um caminho tortuoso até lá chegar, mas será esse o ponto de chegada.

Vamos então ao caminho tortuoso. Pretende-se que o feminismo celebre um evento político que, não obstante ser protagonizado por uma mulher, marca um retrocesso para todas as outras e, já agora, para a comunidade no seu todo.

E se for uma mulher a liderar um governo que pratica genocídios ou limpezas étnicas? Continuam a aplaudir? Qual é o limite? Eventualmente, a resposta que este feminismo liberal dá é que não existe nenhum limite. Entenderão que o feminismo reside no entendimento de que uma mulher tem o mesmo direito que o homem a ser genocida e que qualquer posição de liderança assumida por uma mulher deve ser razão de regozijo para a causa feminista.

Criticam que a esquerda estabeleça uma ligação entre ideologia e causas progressistas, mas são a melhor demonstração de que a relação afinal existe. É que este feminismo vive bem com o infortúnio das mulheres enquanto grupo, e enquanto sujeito político, e sobretudo com o infortúnio das mulheres mais vulneráveis às consequências de governações como são as de extrema-direita: as que integram minorias, as imigrantes e as que ganham os salários mais baixos.

Não existe nenhum mistério no antifeminismo da extrema-direita. Anuncia com clareza ao que vem e obriga a que a maioria das mulheres levante a guarda. Mas existe um grande mistério neste feminismo que aparenta celebrar a libertação das mulheres, mas que não distingue, e não assinala, o que as põe em perigo.

A pergunta que figura no título não mereceria ser respondida, mas há quem tenha tomado a liberdade de pensar nisso.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

Von der Leyen felicita Meloni

Não existe nenhuma razão para estarmos contentes por uma mulher de extrema-direita ter chegado a primeira-ministra. Mais valia um homem decente.

domingo, 23 de outubro de 2022

Os donos disto tudo

 


António Araújo
23 Outubro 2022

É estranho chegar a uma certa idade sem perceber nada de como funciona o mundo. Soube há dias, por um acaso, que, nos idos anos 1990, aquando do frenesi das privatizações na Rússia, a PepsiCo, detentora dos refrigerantes gaseificados, tornou-se uma das maiores potências navais do mundo, pois, em troca das garrafas e das latas Pepsi que estava a vender à larga para a ex-URSS, aceitou ser paga em espécie: 17 submarinos soviéticos, um cruzeiro, uma fragata e um contratorpedeiro. A frota foi vendida para sucata, o que levou o presidente da empresa a gracejar com a Casa Branca: "nós estamos a desarmar a União Soviética muito mais depressa do que vocês."

É desta e de muitas outras loucuras que se faz o nosso tempo, triste e opaco, sem rumo nem norte, abominável mundo novo. E, por detrás dos governos e dos políticos, da ONU e doutras organizações internacionais, das diplomacias, cimeiras bi- ou multilaterais, há gente que actua na penumbra e na sombra, que movimenta o planeta e o põe a rodar sem que nós, os comuns mortais, tenhamos a mínima consciência disso, das decisões e opções que afectam milhões, muito mais do que julgamos. Quando lemos nas notícias que a Rússia autoriza ou não a exportação do ucraniano grão, quando sabemos dos movimentos e dos fluxos do petróleo e da recente - e inacreditável - facada da Arábia Saudita nas costas no Ocidente, julgamos que tudo se passa a um nível estritamente político, entre governos e líderes cujos rostos conhecemos, quando, na realidade, e sem falsos conspirativismos, há outra gente envolvida, muita outra gente envolvida, que compra e vende as mercadorias, os bens de necessidade primeira, que os paga a pronto ou a fiado, que os vai buscar a terras em guerra, que os despacha para onde mais pagarem. O Mundo à Venda. Dinheiro, poder e as corretoras que negoceiam os recursos da Terra (Casa das Letras, Setembro de 2022), um livro recente, da autoria de dois credenciados jornalistas do Financial Times e da Bloomberg, Javier Blas e Jack Farcity, levanta a ponta do véu da actividade dos corretores de matérias-primas, um punhado de empresas que controlam uma parcela substancial dos recursos naturais do planeta e que na sombra fazem lucros estratosféricos, muitas vezes à conta da guerra e do sofrimento alheio. Dirão os seus defensores que, sem os corretores de recursos, não teríamos o que comer à mesa nem gasóleo nos depósitos, não haveria casas, computadores, aviões no ar, carros nas estradas, o que é indiscutivelmente verdade, mas mostra o poder que tais indivíduos e empresas têm, a sua capacidade de domínio e influência, com a agravante de não sabermos quem são e o que fazem, de agirem na obscuridade e quase total impunidade, alheios ao controlo democrático e ao escrutínio mediático a que sujeitamos, e bem, os nossos governantes. É por isso, justamente por isso, que se torna ainda mais absurdo, inconcebível, que ignoremos sequer a existência destas pessoas e entidades, que não saibamos quem são e o que fazem, quais são os seus líderes e os seus perfis, concentrados que estamos em celebridades ou políticos que, na esmagadora maioria dos casos, não têm poder comparável ao desta gente sem rosto. Fiz a experiência: na sempre informada Wikipédia, cliquei no nome de "Gary Neagle" e deparei com quatro linhas apenas, que nos dizem tratar-se de um sul-africano que fez um curso de comércio e de contabilidade na Universidade de Witwaterstrand e que em 2000 entrou para os quadros da Glencore, de que é hoje o CEO. Nada mais é dito, nada mais sabemos sobre o homem que está aos comandos de uma das maiores empresas do mundo, ainda hoje a maior empresa de corretagem de mercadorias do planeta, até há pouco a maior empresa da Suíça, dominando 60% de todo o zinco comerciado internacionalmente, 50% do cobre, 9% do trigo, 3% do petróleo.


Ou veja-se uma outra empresa, a familiar e centenária Cargill, sediada no Minnesota, da qual provavelmente poucos ouviram falar, ao contrário do que sucede com a Apple, a Zara, a IKEA ou tantas outras. Pois bem, a Cargill é uma empresa privada, mas, se fosse aberta e cotada em bolsa, estaria no 15º lugar do índice Fortune 500. Com mais de 166 mil empregados espalhados por 66 países, dedica-se ao trading de cereais e outros produtos agrícolas, como o óleo de palma, mas também ao comércio de energia, aço, gado, rações, bem como à produção de xarope de glucose, óleos vegetais, alimentos processados. É responsável por 25% de todas as exportações norte-americanas de trigo e pelo abastecimento de 22% da carne consumida nos Estados Unidos. Todos os ovos consumidos nos restaurantes McDonald"s da América provêm de aviários da Cargill, que é também a maior produtora de frangos da Tailândia. O seu CEO chama-se Dave McLennan e, se forem novamente à Wikipédia em língua inglesa, encontrarão não mais do que três linhas, que dizem apenas que se formou em Amherst e que fez um MBA em Chicago, que é casado e tem três filhos, mas nada mais adiantam ou esclarecem. Sucede que, em 2019, num relatório produzido para o Center of International Policy, um think tank de Washington fundado em 1975, o antigo representante democrata Henry Waxman não hesitou em qualificar a Cargill como "a pior empresa do mundo", cuja dimensão colossal a faz esmagar todos os seus concorrentes e com um inenarrável cadastro em matéria de abate de florestas, poluição, alterações climáticas e tráfico e exploração de seres humanos. O rol das acusações é extenso e brutal: em 2021, oito antigas crianças escravas do Mali intentaram uma acção contra a Cargill, pelas condições de trabalho que sofreram nas plantações de cacau do Mali, existindo notícias sobre redes de tráfico e exploração nesses países desde 2005, pelo menos, o mesmo sucedendo com o algodão do Usbequistão, que a Cargill adquire e que é produzido com trabalho escravo e trabalho infantil. A isso juntam-se problemas laborais gravíssimos, como tentativas de supressão de sindicatos, exposição dos funcionários aos riscos da Covid-19, a par de aquisição abusiva de vastas parcelas de terra, violando os limites da propriedade fundiária, venda de alimentos adulterados (em 1971, a Cargill foi responsável pela venda de trigo contaminado ao regime de Saddam Hussein, provocando a morte de 650 pessoas, pelo menos), deflorestação na selva amazónica e das florestas tropicais na Sumatra, no Bornéu, no Gana, na Costa do Marfim (a Cargill comprava ou compra cacau plantado ilegalmente nos parques naturais desse país!), poluição atmosférica intensa, fraude e evasão fiscal. "A pior empresa do mundo", dizem, e o mais grave é nem sabermos que ela existe e o que faz.

"Agora e por ora, uma coisa é certa: Putin e Xi, Mohammad bin Salman e outros prestaram-nos um grande, enorme serviço, ao mostrarem-nos que temos de arrepiar caminho e mudar de vida, de dependermos menos, cada vez menos, do petróleo sujo das ditaduras."

Para termos uma ideia, basta dizermos que as cinco maiores corretoras de petróleo do mundo lidam diariamente com 24 milhões de barris de crude e produtos refinados, o equivalente a quase um quarto da procura de petróleo mundial. Ou que as sete maiores corretoras de bens agrícolas detêm quase metade dos cereais e sementes oleaginosas do mundo. Ou que a Glencore, a maior corretora de metais do planeta, representa um terço da oferta mundial de cobalto, uma matéria-prima essencial para a produção de veículos elétricos.

É certo que, a par dessas empresas, muitas outras se dedicam ao comércio de matérias-primas, como as grandes petrolíferas, com a BP e a Shell à cabeça, ou instituições bancárias como a Goldman Sachs ou a Morgan Stanley. Mas o que impressiona, além da opacidade tremenda, é o grau de concentração e domínio que este punhado de corretoras adquiriam: a partir de um bunker numa cidadezinha da Suíça, a Glencore é uma das maiores corretoras de trigo e de metais do mundo e controla uma parcela do negócio de petróleo, cuja empresa-líder é a Vitoil, sediada em Londres, a curta distância do Palácio de Buckingham.

Desde que o mundo existe, existem indivíduos ou companhias que se dedicam a negociar e a intermediar compras e vendas de bens e produtos. Contudo, foi a explosão do comércio mundial no pós-Segunda Guerra que levou à expansão das corretoras e, sobretudo, à sua concentração em gigantescos colossos que actuam à escala global e desafiam o poder de governos e a soberania dos Estados. Nos anos a seguir à guerra, o comércio mundial de matérias-primas e bens manufacturados representava cerca de 60 biliões de dólares; em 2017, representou mais de 17 triliões de dólares.


É também espantoso notar como estas empresas singraram e se mostraram e mostram imunes às sucessivas convulsões que abalam o mundo - e até, pelo contrário, como são capazes de tirar partido dessas convulsões para aumentarem os seus lucros e o seu poderia. Até aos anos 1960, o comércio mundial de petróleo era dominado pelas chamadas "Sete Irmãs": a Anglo-Persian Oil Company, antecessora da BP; a Royal Dutch Shell; a Standard Oil of California, a Gulf Oil e a Texaco, que se uniram na actual Chevron; a Jersey Standard e a Standard Oil of New York, predecessoras da ExxonMobil. Com as vagas de nacionalizações que assolaram os países do Médio Oriente nas décadas de 1960 e 1970, o monopólio das "Sete Irmãs" foi seriamente afectado e, de repente, o mercado mundial do petróleo tornou-se livre, ou na aparência mais livre, pois logo foi capturado pelas corretoras de matérias-primas, que tiveram aqui o seu grande boom. Mais tarde, com o colapso da União Soviética, as corretoras entraram a matar no vasto paraíso de recursos naturais da Rússia e, anos depois, voltaram a beneficiar extraordinariamente do espectacular crescimento económico da China, um país sedento de matérias-primas. Para se ter uma ideia: em 1990, a China consumia o mesmo montante de cobre de Itália e hoje é o maior consumidor de cobre e o maior produtor de metal refinado do mundo. E, na década do boom das matérias-primas liderado pela China, que se prolongou até 2011, os lucros combinados das três maiores corretoras eram superiores aos dos mais conhecidos gigantes do comércio internacional, como a Apple e a Coca-Cola.

Outra circunstância que favoreceu, e muito, os corretores internacionais foi, segundo os autores de O Mundo à Venda, a "financeirização" da economia e o crescimento do sector bancário nos anos 1980 e seguintes, facto que permitiu aos traders negociarem agora com base em vultuosos créditos e garantias bancárias. Em 2019, as quatro maiores corretoras de matérias-primas tiveram um volume de negócios de 725 mil milhões de dólares - mais do que o total das exportações do Japão.
O abrandamento da economia imposto pela Covid reflectiu-se numa redução dos preços das matérias-primas, o que implicou perdas para os mais frágeis, mas, uma vez mais, permitiu aos grandes potentados adquirirem mercadorias a preços de saldo, ridiculamente baixos, guardarem-nas nos seus gigantescos silos e revenderam-nas com lucros fabulosos (alguns corretores compraram mesmo barris de petróleo a preços negativos, o que obrigou a produtores a pagarem para vender a sua mercadoria!). E, a crer do que ocorreu no passado, em que as guerras sempre beneficiaram os traders de bens essenciais, é possível, até provável, que hoje em dia existiam corretores a fazerem fortunas astronómicas com o grão da Ucrânia ou o petróleo da Rússia. É que, na perspectiva dos corretores, quanto pior, melhor, ou seja, a instabilidade de uma dada região é, em regra, um factor de maior rentabilidade. Se um país rico em recursos mergulhar numa guerra civil fratricida, os que lá se aventurem com o bolso cheio de dólares poderão comprar a preços de saldo aos dois lados em contenda; em certos casos, as corretoras, como dispõe de fundos financeiros gigantescos, não hesitam em financiar uma das facções em luta, ou ambas, a troco de contratos que hipotecam os recursos naturais do país por 10, 15, 20, 30 anos. (foi a Vitol que financiou os rebeldes da Líbia e, em larga medida, precipitou a queda de Kadhafi). Ou seja, a violência e a guerra interessam a estas empresas, como lhes interessam as altas de preços, mesmo que isso impliquem o sofrimento e a penúria de milhões. Na crise do petróleo de 1979, a Marc Rich & Co. ganhou tanto dinheiro que, se estivesse cotada em Bolsa, teria sido uma das dez empresas com mais lucro da América. Não muito depois, Marc Rich teve de fugir dos Estados Unidos, onde era acusado de crimes vários (ex. evasão fiscal, escutas ilegais, extorsão, negócios ilícitos com o Irão aquando da crise dos reféns), que foram escandalosamente perdoados por Bill Clinton no último dia do seu mandato, facto a que não serão alheios os donativos milionários feitos para o Partido Democrata.

As sanções económicas não dissuadem estes donos do mundo e, pelo contrário, criam até, muitas vezes, um ambiente mais favorável a actuar na sombra e a reclamar maiores lucros. No Iraque, as corretoras negociaram com Saddam Hussein, ignorando as sanções da ONU, da mesma forma que trocaram açúcar por petróleo com Fidel Castro, venderam secretamente toneladas de trigo e de milho norte-americanos à URSS no auge da Guerra Fria e, claro está, financiaram os negócios dos oligarcas de Vladimir Putin, como Igor Sechin, o patrão da Rosneft, alcunhado "Darth Vader", que hoje é alvo de fundas sanções no Ocidente. Nada que dissuada os traders de matérias-primas, que nunca hesitaram em negociar com os ditadores mais sanguinários do planeta, mesmo quando já era certo e sabido as atrocidades que praticavam. E, ao longo das últimas décadas, é inimaginável a dimensão da corrupção praticada as corretoras de recursos: têm-se sucedidos os escândalos e os processos, mas eles representam apenas a ponta de um icebergue quilométrico, que já envolveu, entre outros, um dos maiores bancos do mundo, o BNP Paribas, alvo de uma multa de 8,9 biliões de dólares, em 2014, por negociar com países alvos de sanções pelos EUA, como o Sudão, o Irão e Cuba, país onde o BNP Paribas financiou a acção de uma corretora, a Trafigura, a qual esteve metida em tremendos escândalos como o do programa Petróleo-por-Alimentos das Nações Unidas, que encerrou em 2003 devido aos seus esquemas fraudulentos e corruptos, e o do lixo tóxico despejado na Costa do Marfim, em 2006, responsável por uma crise de saúde pública que afectou cerca de 100 mil pessoas.

É quase desnecessário dizer que uma parcela significativa das matérias-primas que circulam no mundo estão sediadas em off-shores, fugindo ao controlo de qualquer regulador nacional, e recorrem a empresas de fachada, enquanto as corretoras se domiciliam na Suíça ou em Singapura, desde sempre complacentes para com a escória do mundo. Num mundo globalizado, de pouco vale ter mecanismos de transparência e controlo nacionais, válidos em cada país, se depois não existir regulação e vigilância num plano mais vasto, internacional. De que adianta ter mecanismos que impeçam, em França, em Portugal, no Canadá ou no Brasil, excessivas concentrações de empresas, práticas monopolistas ou distorções de concorrência se as empresas em causa têm as suas sedes em off-shores e actuam não à escala nacional, mas transnacional? Um exemplo: nas duas últimas décadas, a Vitol, a rainha do petróleo mundial, pagou apenas 13% em impostos sobre os seus lucros de mais de 25 mil milhões de dólares. Na Bélgica, a carga fiscal sobre o trabalho é de 52,6%, em Portugal é de 41,8%, a média dos países da OCDE é de 34,6% A Vitol pagou 13% sobre os seus lucros de 25 biliões. Em face disto, não admira que surjam, cada vez mais, sentimentos de revolta e populismo anti-sistémicos; o que admira, isso sim, é que essa revolta e esse extremismo sejam ainda tão reduzidos. Para as injustiças que vemos por esse mundo fora, se o comportamento dos cidadãos surpreende por alguma coisa é pela sua moderação, pelo conformismo, pelo respeito por um estado de coisas cada vez mais precário e insuportável. As democracias preocupam-se, e bem, com o ascenso de forças políticas extremistas, mas pouco fazem para debelar os problemas económicos e sociais que lhe dão origem. De pouco adianta, na verdade, gastar milhões na vigilância de grupos neonazis se se mantiver o statu quo nas periferias das grandes cidades, com desemprego jovem, falta de oportunidades e perspectivas de futuro, desigualdades crescentes, crise na habitação.

Nos últimos anos, ao que parece, o poder das corretoras tem sofrido algum retrocesso, seja pelo facto de a informação privilegiada de que dispunham sobre fontes de matérias-primas, preços de compra e venda, etc., estar hoje muito mais generalizada e democratizada graças à Internet, seja porque muitos governos e organizações procedem aos seus negócios de forma directa, prescindindo de intermediários, seja, enfim, porque a cultura vigente nos traders também mudou para melhor, porventura fruto dos muitos escândalos do passado e das indemnizações milionárias que tiveram de pagar. Resta saber, todavia, se a guerra da Ucrânia e a instabilidade mundial não representarão novas oportunidades para um regresso em força das corretoras, naquele que é mais um efeito colateral, e pouco falado, do gesto louco de Vladimir Putin. Outro, de que pouco se fala, será o fortalecimento das redes e das máfias de tráfico humano no centro da Europa, do crime organizado, bem como dos negócios de armamento, para não falar de que, quando tudo acalmar, existirão certamente centenas ou milhares de homens armados a Leste, com experiência de combate e sem profissão e emprego. Serão necessários anos, décadas, para que tudo possa regressar ao normal.

Agora e por ora, uma coisa é certa: Putin e Xi, Mohammad bin Salman e outros prestaram-nos um grande, enorme serviço, ao mostrarem-nos que temos de arrepiar caminho e mudar de vida, de dependermos menos, cada vez menos, do petróleo sujo das ditaduras. E não, não é indiferente comprarmos energia a uma democracia comercial como a América ou a uma ditadura corrupta como a Rússia. Resta saber como se irão portar, no meio de tudo isso, os donos e senhores do mundo, as corretoras de matérias-primas. Saber sequer que eles existem, conhecer quem são e o que fazem, é já um bom primeiro passo. E depois, confiemos no futuro, já que o presente... enfim.

VAI TUDO ABAIXO

 

Legenda da foto: Sr Z em Liman, ou será em Kharkov? Ou talvez em Kiev?


A entrevista de Jack Keane à cadeia de televisão FOX News, constitui um exemplo emblemático da falácia do “Golias, o conquistador”, o qual, aproveitando-se da fraqueza de “David, o libertário LGBT+”, decide entrar em casa alheia sem ser convidado, provocado ou assediado.
Jack Keane, não é um zé ninguém qualquer, daqueles comentadores de facebook… Não! Jack Keane sabe do que fala. Afinal é só ex-Chefe do Estado Maior Conjunto dos EUA, que aconselha o Departamento de Defesa, o Conselho de Segurança, etc. Trata-se, ainda, de um General de 4 estrelas, e, portanto, teremos de assumir que o que ele diz à FOX é mesmo assim. Até porque bate certo com todos os outros indícios, históricos e hodiernos, bem como com os desabafos já veiculados por outros conselheiros, congressistas e secretários de estado da casa branca. O vídeo pode ser visto em https://www.youtube.com/watch?v=QyqGR42DD2U. Pena é estar em inglês, mas com a tradução simultânea dá para perceber o que ali é testemunhado.
Então, o Major General Jack Ryan, disse á cadeia Fox, mais ou menos que, o partido republicano está sempre muito preocupado com as contas, mas, desta vez, a Casa Branca fez um óptimo “investimento” de "66 biliões de dólares”. E sublinhou “investimento”, porque com uns meros 66 milhões de dólares lograram “comprar” o país do Sr. Z e assim libertar o governo estado-unidense de uma despesa de triliões. E, acrescentou que, com esse “investimento”, em vez de termos militares do seu país a morrer a combater o inimigo, passámos a ter os jovens do país do Sr. Z a fazê-lo.
Precioso testemunho este. Se depois disto, ainda houver quem acredita na falácia que visa alinhar, contra ESTA guerra, todos os que estão a favor de TODAS as outras, e perseguir, por sua vez, quem está, sempre e continuadamente, contra TODAS as guerras SEM EXCEPÇÃO, é porque chegámos ao plano da religião ou do futebol, e nesse plano, já não discuto.
Este caso é paradigmático sobre a forma como foi montada toda uma estratégia de relações públicas que visou, sobretudo, arrastar a opinião pública ocidental para um quarto fechado e escuro, negando, atacando e rejeitando tudo o que esteja para lá desse cubículo.
Peguemos noutro exemplo, para percebermos como funcionam estas falácias, cuja superficialidade atroz nos estarrece, tal a facilidade em serem desmontadas, demonstrando, por isso mesmo, o nível de alienação em que colocaram as pessoas mais incautas, desinformadas ou religiosas, em relação à corrente política dominante.
Ontem, as Tv’s falavam de um ataque russo a Adiivka, que vitimou 7 civis inocentes. Não tenho dúvidas de que terão morrido inocentes, pois a guerra é mesmo assim. Não sou dos que acho que as guerras do ocidente só matam gente má e culpada, como estou certo de que as bombas russas também matam gente inocente. Mas, na CNN dizia-se que a explosão fora provocada por um míssil proveniente de uma defesa anti-aérea.
Perante o paradoxo (apenas aparente, diga-se) de um míssil terra-ar atingir um alvo em terra, para mais, tratando-se de um míssil antiaéreo, usado para efeitos defensivos, que atingiu uma cidade sob domínio do Sr. Z, concretamente a cidade que no Donbass reúne os postos de comando mais importantes dos AZOV e das FAU, o que fez o comentador de serviço?
O comentador engendrou uma explicação brutalmente contraditória que jogasse com a acusação vinda de Kiev. Ou seja, não foi verificar o que aconteceu realmente, dada a estranheza (nada isolada, aponte-se) do acontecimento. Então, este grande obreiro da desinformação explicou, o que aconteceu, foi que o exército do Sr. P, como está com falta de misseis de longo alcance, decidiu começar a usar mísseis terra-ar, provenientes de complexos de defesa antiaérea, mas destinados a alvos terrestres. E, continua o “cartilheiro”, dizendo que “estes mísseis, como se sabe, são menos precisos” e, concluiu com “isto marca uma nova fase na ofensiva caracterizada pela falta de armas de precisão”.
Bem, aparte da barbaridade de haver gente desta num serviço deste tipo, o que aconteceu, logicamente, e em linha com o que temos visto, e, aplicando o princípio de Occam, segundo o qual a explicação mais simples, normalmente, tende a ser a correcta, é que, desde o início, as forças do Sr. Z, como forma de potenciarem o número de vítimas, para efeito de guerra da informação, colocam as baterias antiaéreas dentro das cidades.
Ao contrário do que mandam as regras, os sistemas de defesa aérea devem estar em locais desabitados, para, precisamente, não acontecerem este tipo de acidentes. Contudo, como o Sr. Z sabe (mas não o assume), as tropas do Sr. P têm mostrado contenção na hora de bombardear zonas urbanas, especialmente quando comparadas as intervenções no Iraque ou na Palestina. Daí que, o Sr. Z, mande instalar estas coisas no meio das cidades, camufladas, pois sabe que aí mais dificuldade terá o inimigo em destruí-las. Contudo, sempre que têm de ser usadas – e neste caso foram usadas contra drones Geran-2 -, das duas uma, um interceptam o alvo aéreo, ou ficam à deriva e caem num local mais ou menos aleatório. E isto temos visto acontecer desde o início desta guerra. Até porque, se as defesas antiéreas são colocadas para defender um território que está dentro da área de intervenção, como raio é que um míssil antiaéreo do Sr. P cairia a dezenas de quilómetros da sua área de intervenção. Depois, existe um vídeo filmado por um civil de Adiivka que mostra o missil a falhar o drone e a voltar para... Isso! Para o chão!
Depois, eu não sou militar, mas estes mísseis terra-ar são dirigidos a alvos móveis, sendo disparados para uma trajectória que intercepte o alvo em movimento. Logo, como poderiam ser usados para alvos estáticos e logo em terra? E o que é que a precisão tem a ver com isso? Até porque, não sendo eu entendido, estes mísseis até devem ser bem precisos, porque senão não cumprem a sua função de defesa, certo? E, segundo tenho lido, o mais difícil é atacar alvos em movimento e estes mísseis fazem-no. Logo… Já viram o disparate que o tipo estava a dizer, só para justificar a aldrabice, mais uma!
Mas, esta questão do exército do Sr. P não ter munições, é outro disparate. E os bombardeamentos dos últimos dias demonstram-no com toda a evidência. Ao que consta nos próprios canais ucranianos, a noite passada foi mais uma em que infra-estruturas importantes foram atacadas pelo exército do Sr. P. Ora, partindo do princípio de que os órgãos informativos “livres” não nos enganam deliberadamente, devemos questionar como é que o o Sr. P bombardeia sem munições. Temos de admitir que é um bocado estranho.
O site de política internacional www.moonofalabama.org fez uma lista (disponível em: https://www.moonofalabama.org/.../russia-having-run-out... ) das notícias veiculadas pela imprensa “independente”, “livre” e “credível”, sobre o esgotamento iminente de munições ao dispor do exercito do Sr. P.
Desde a Reuters, Financial Times, o Moscow Times (é americano, e não, não foi encerrado!), Jerusalem Post, Daiy Mail, the Sun, Newsweek, Business Insider, todos, mas todos, desde Março do corrente ano, recorrem a especialistas do topo da hierarquia militar dos nossos dominadores “aliados”, para jurarem, a todos os santinhos, pela família e filhos, que o Sr. P já só tem pólvora seca, ao seu dispor. Nem é preciso dizer, o quantas vezes as nossas “livres” TV’s, Jornais e Rádios, reproduziram estas afirmações, nunca as contradizendo, ou, pelo menos, verificando junto de fontes diversas e realmente independentes, se tal seria verdade ou não.
Todos estes casos, a par das constantes “visitas” do Sr. Z à linha da frente, mostram-nos como, cada um dos lados, combate esta batalha, usando estratégias totalmente diversas. Uns trabalham para a fotografia, outros trabalham para dominar, de facto.
Exemplo disto mesmo é o que alguns militares americanos (russos, chineses e europeus também) têm referido a respeito da estratégia russa. O objectivo de desmilitarização do exército do Sr. Z, segue os princípios doutrinários das grandes vitórias do passado. Pode destruir-se o inimigo indo contra ele, mas isso obriga a recursos infindáveis e, sobretudo, a maior mortandade de tropas. A outra hipótese é o que fizeram com Napoleão ou na 2ª grande guerra. Estabilizam as linhas de defesa, fortificam-nas e criam uma barragem de artilharia, com apoio de aviação e tudo o que é preciso. Depois, é só esperar pelo inimigo. Como o inimigo trabalha para a fotografia, vai-se deixando avançar as suas tropas em locais sem importância estratégica (estepes, cidades despovoadas) e, a cada avanço, o inimigo perde milhares de homens e centenas de veículos. O terreno “perdido” funciona como a “cenoura”. Não é segredo que, quando o Sr Z chegou a Liman, encontrou as casas vazias e os depósitos de munições desertos. Ou seja, houve uma saída planeada e ordenada. Em contrapartida, as perdas nesse avanço foram na ordem dos milhares de homens.
O facto é que, tal como fez Hitler na 2ª guerra, na tentativa de gerar um plano de desmoralização do inimigo, à medida que ia vendo o seu exército desbaratado, foi precisamente quando começou a fazer avançar as reservas, atacando tudo ao mesmo tempo. O resultado, já todos sabemos. Hoje, ver os relatórios das várias partes envolvidas (todas elas e não apenas as duas principais), constatamos que, até de acordo com a comunicação social “credível”, todos referem perdas de centenas -e às vezes milhares – todos os dias, nos continuados ataques do Sr. Z. No final, tudo o que são objectivos estratégicos, não consegue nenhum. Mas, aos poucos, vai perdendo o exército. As armas soviéticas já foram quase todas (as que tinham e as que lhe mandaram os “aliados”), e agora chegou a vez das ocidentais, que chegam a cada vez menos velocidade, ao ponto de já se usarem veículos civis normais como carros de assalto.
E porque é que, sabendo disto, o Sr. Z opta por chocar contra este muro? Porque o objectivo é a fotografia. Criar uma ideia de avanços continuados, visando desmoralizar o inimigo, na linha da frente e em casa. A par disso, os serviços secretos de sua majestade, ajudados e coordenados pelos de sempre, vão rebentando com infra-estruturas importantes, dentro e fora do país do Sr. P, visando criar um contexto propício a uma revolução colorida que o retire do poder. Esta é a única estratégia real que eles têm (e que se repete no Irão, na Tailândia, na Venezuela…), visto que, as sanções não resultam, porque, como já todos sabemos, elas não se destinavam ao país do Sr. P, mas aos países do Sr. S, M, L, “sabiamente” colocados a jeito pela Srª van der Lata.
E de tal modo foram colocados a jeito, que, só para dar um exemplo do nível de autoflagelação em que fomos colocados, podemos dizer que, num período marcado pela crise “provocada” de acesso ao petróleo e gás, em que estas matérias sobem de preço de forma estratosférica, a europa continua a comprá-las, não em €, mas em dólar. Ora, se o € tem desvalorizado e o dólar tem valorizado (o que demonstra a engenharia aqui subjacente), a europa deveria evitar comprar energia em dólar, certo? Pois, ao converter € em dólar, está a prejudicar-se do ponto de vista cambial. Mas para não chatear a Casa Branca, van der Lata prefere tornar-nos a energia ainda mais cara, enquanto países como a China, India, Turquia, Brasil, Irão, Arábia Saudita e outros, já estão, precisamente, a diminuir as suas compras em dólares, precisamente porque este está demasiado valorizado. Eis como se enterra, ainda mais, uma economia.
E enquanto Stoltenberg diz que uma derrota do Sr. Z é uma derrota de todos “nós”, o que, pela milésima vez, demonstra quem está, de facto, por detrás do conflito, na França mais de 2000 postos de combustíveis estão fechados por uma greve, que ameaça tornar-se uma greve geral. Isto, enquanto Macron manda atirar com gás lacrimogéneo e balas de borracha contra estudantes do ensino secundário em luta. Oh! Se fosse o Sr. P, ou o Sr. X, o que não faltaria de “ditadura” e “tirania”. As classificações dependem da simpatia ocidental para com quem pratica os actos. Num caso são estudantes “violentos”, no outro são estudantes “pacíficos”, mesmo que atirem com cocktails molotov.
Mas as TV’s do burgo pouco falam destas coisas, que, aliás, se repetem, cada vez com maior força, pela Europa fora. O que não admira, tal o nível de autodestruição em que foi colocada a economia europeia e, no nosso caso, nacional.
Mas se Marcelo e Costa têm tanta comiseração pelos civis ucranianos - que a merecem toda, diga-se - pouca têm pelos 400 jovens e crianças abusados pelas figuras da igreja católica. Parece que, uma vez mais, depende de quem pratica a violência. Se é inimigo, são crimes contra a humanidade, se são amigos, são “poucos casos”. Se este exemplo não serve para constatar a parcialidade com que se avalia a realidade, então não sei já o que serve.
O facto é que isto tudo pode ainda agravar-se mais. O aprofundamento das relações do país do Sr. P com os países do golfo, tem tudo para começar a ameaçar de morte o petrodólar. Ora, já sabemos onde vão os nossos “amigos” atlânticos pilhar, quando perderem os “almoços grátis” do petro dólar. Penso que, a valorização a sua moeda, o crescimento do seu PIB, o domínio de mercados, antes europeus, entre outros, mostram o caminho que vai ser seguido. E como nós o pagaremos com língua de palmo.
Se a isto adicionarmos as provas que já existem de que o Sr. Z usa os barcos carregados de cereais – carregados ao abrigo do acordo da ONU – para esconder e transportar armas, antevê-se aqui mais um aperto no garrote. É que o Sr. P terá o pretexto que quer para impedir estes barcos de saírem em direcção aos seus compradores. Também se diga que, ao contrário do que se propagandeava, o trigo vindo do país do Sr. Z não se destinava a África, mas sim à Europa. Apenas 2 em cada 87 navios, saem com destino à África. Eles vêm é para a Nestlé, Milaneza, Nabisco, Matutano e outras do tipo.
O mesmo faz o Sr Z com os comboios de civis saídos da Polónia. Carruagens à frente com civis, carriagens de trás com tanques de guerra, transformando os civis em escudos, ou em alvos militares, é só escolherem. E porque o fazem? Porque sabem que, ou o Sr. P não os ataca, por causa dos civis, ou se os atacar, lá vêm as fotografias de mortos sempre tão requeridas nos meios de propaganda ocidental.
Por fim, sabemos que os EUA pretendem banir, desta feita, o alumínio do país do Sr. P. Não admira. Tendo assegurado os seus fornecimentos, seja ao nível nacional, seja na América Latina, os EUA podem agora apertar um pouco mais um garote à EU. Até porque van der Lata, se os EUA dizem que é alumínio, ela manda logo banir o aço, níquel, zinco, papel, madeira, cereais… Tudo para se mostrar convicta, militante e bem-comportada.
O facto é que, o alumínio é daqueles metais que tem importância primordial para a indústria automóvel, aviação e metalomecânica. Estas indústrias, motores da economia europeia, terão de o comprar muito mais caro e a quem? Ou a mercados dominados por quem? Pelos de sempre.
E se dissermos que, da Boeing à General Motors, anular a concorrência da Airbus e dos fabricantes alemães, franceses e italianos, dá um jeitão… Já se está mesmo a ver quem ganha com a desindustrialização… Os discursos podem ser lindos, convictos, solidários e libertadores… Mas a prática, a objectividade, a realidade é esta:
Vai tudo abaixo!
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(contém todos os textos, incluindo alguns que não publico e mantenho na gaveta)
Dicas para contornar o algoritmo azul:
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O que conta é interagir o mais possível... Não anula as barreiras, mas ajuda a retirar-lhes eficácia.

Imagens e textos (tradução automática), colhidos da internet
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sábado, 22 de outubro de 2022

𝐍Ã𝐎 𝐈𝐍𝐒𝐂𝐑𝐄𝐕𝐀 𝐎𝐒 𝐒𝐄𝐔𝐒 𝐅𝐈𝐋𝐇𝐎𝐒 𝐍𝐎 𝐑𝐔𝐆𝐁𝐘*

 

𝐑𝐔𝐆𝐁𝐘



Por Afonso Vareta
"Pense bem antes de fazê-lo! Isso pode afectar negativamente o seu futuro.
No mês de setembro, alguns pais vão escolher uma actividade desportiva adaptada ao crescimento físico e educacional dos filhos. Alguns terão a ideia de os inscrever no rugby.
Mas cuidado: o rugby pode ter consequências graves para o futuro dos seus filhos.
Eles não vão apenas aprender as regras do jogo. Eles vão mergulhar num mundo que vai influenciar os seus hábitos futuros.
Eles vão entrar em contacto com uma cultura que nem sempre coincidirá com o comportamento social normal.
Todos procurarão ensinar-lhe coisas como o respeito pelos árbitros, adversários, público e pelas regras do jogo.
Terão de aceitar as decisões do árbitro de forma educada e civilizada.
E uma coisa realmente estranha, não vão poder deitarem-se no chão para simular uma falta do adversário.
Podem também aprender outras coisas estranhas, como por exemplo, apoiar os seus amigos e companheiros de equipa, ajudar os mais fracos, saudar os seus adversários no fim do jogo e comemorarem em conjunto a alegria de terem jogado, seja qual for o seu resultado.
Estes estranhos costumes podem influenciar a capacidade relacional do seu filho.
Com efeito, nos campos de rugby há a absurda ideia de ensinar que não podemos vencer sozinhos mas que temos de trabalhar juntos. Que é fundamental trabalhar em equipa para atingir o mesmo objetivo.
Que todos as posições são importantes. Que os meninos gordos são tão fundamentais quanto os magros que correm mais depressa.
Que não há estrelas, que o importante não é aquele que marca mas sim o trabalho colectivo que permite chegar ao resultado pretendido, pois todos têm o seu lugar na equipa.
E depois há mais uma: vão aprender a cair e a levantar-se imediatamente...porque há sempre mais um bocadinho para dar, e um amigo e companheiro para apoiar.
Vão aprender a controlar os seus próprios medos e ultrapassá-los sem se esconderem atrás de desculpas ou justificações absurdas.
Isto é o perigo do rugby".

Texto de Vasco D'Orey Branco, roubado ao Vítor Santos

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Aa boas maneiras ainda importam?

O que é mais importante? Saber o que fazer com os talheres à mesa ou resistir e não mexer no telemóvel? Ou será que, hoje em dia, as regras de etiqueta já não fazem sentido?


10 DE OUTUBRO DE 2022 | Bruno Lobo

Descobri, recentemente, como algumas das minhas amigas se sentiam ofendidas quando eu me oferecia para carregar os seus sacos ou para lhes abrir uma porta à sua passagem. Sempre pensei que eram gestos de boa educação, mas, afinal, eu estou a "passar um atestado de menoridade às mulheres". E isso não pode ser. Depois de tantos anos a falar sobre igualdade, existem cada vez mais mulheres sem paciência para pequenos gestos de cavalheirismo como estes, para quem igualdade é mesmo para ser levada à letra – porque as diferenças começam no transporte dos sacos e acabam na folha de salários.

Provavelmente têm toda a razão (e mesmo que não tivessem). Cabe-nos respeitar essa posição, pelo que eu me junto, desde já, ao movimento: não levo sacos, não deixo passar à frente e não me levanto mais para que se possam sentar. Quer dizer, ainda me levanto se for uma senhora mais velha, mas para as outras não. E evidentemente mais velha porque também não quero ofender alguém por esse lado. Ou será que também já não faz mal perguntar a idade?


Os tempos estão definitivamente a mudar, o que não é nada de novo porque nunca estiveram parados (só nos resta adaptar), e, provavelmente, já não faz muito sentido falar-se em boas maneiras ou cavalheirismo como no século passado. Será que as regras de etiqueta foram parar ao caixote do lixo da História, como os dinossauros e o cubo mágico? Uma breve pesquisa pela Internet – tecnologia que alguns insistem em chamar de nova – revela-nos, surpreendentemente, o contrário, pois existem cada vez mais páginas repletas de conselhos e de regras a explicar às senhoras como se devem sentar, como nos devemos comportar à mesa e para que servem todos os talheres – mesmo aqueles que nunca viu "mais gordos". Os exemplos abundam e são todos recentes, ainda que a maioria destas páginas esteja em português do Brasil, tal como existem vários capítulos dedicados à forma como nos devemos dirigir a todas as excelentíssimas excelências com quem nos cruzarmos – ao vivo ou por correspondência, "inclusive eletrónica" (o nome que estas pessoas gostam de dar ao e-mail). E pergunto: será que precisamos de toda essa deferência para sermos amáveis e respeitosos para com alguém? E, já agora, que tipo de pessoa se sente ofendida por não ser tratada assim?Provavelmente, a mesma que envia memorandos ao seu pessoal a explicar como devem "sempre" acrescentar o título Esquire (uma forma mais antiga e formal de nos dirigirmos a alguém em inglês) a seguir ao nome dos deputados no parlamento britânico. Foi o que fez Jacob Rees-Mogg, recentemente nomeado Leader da House of Commons, que não é bem o presidente do parlamento britânico, esse é o Speaker (aquele senhor famoso por gritar "Order!, Order!" durante os debates do Brexit). Este é mais uma espécie de ministro dos Assuntos Parlamentares, foi nomeado por Boris Johnson e é, como ele, um brexiter ferrenho: o memorando ainda proibia o staff de usar valores em metros ou quilogramas. Só Imperial Measurements, por favor.


A mensagem não especificava, no entanto, as regras de tratamento para as senhoras parlamentares, possivelmente porque estas deviam estar a carregar sacos e deixar os destinos do país para os homens…

A lista gerou alguma polémica no Reino Unido e levou a colunista do The Sunday Times, India Knight, a escrever uma crónica contra as regras de etiqueta: "Etiqueta é um conjunto de regras destinada a fazer as pessoas sentirem-se superiores", escreveu, ao mesmo tempo que fazia uma distinção entre etiqueta e boas maneiras: "No fundo, a etiqueta é sobre as pessoas conhecerem o seu lugar. As boas maneiras é sobre viverem de forma a que o mundo seja um lugar mais simpático e fácil para todos. Uma é divisiva, a outra igualitária."

Aceitamos. Até que para certas figuras de estado possa existir algum cuidado especial no tratamento – a rainha de Inglaterra é sem dúvida um bom exemplo –, mas para o resto da humanidade? Os poucos, raríssimos, que já tiveram o privilégio de conhecer a rainha sabem que o conjunto de regras para estar na sua presença é grande e complexo. Que o diga o nosso Presidente que terá passado uma noite a ler o protocolo real (e uma noite de Marcelo equivale, no mínimo, a uma semana das nossas) só para o quebrar quando, finalmente, teve o seu momento a sós com sua majestade. O seu pecado? Falar demais: "Lembra-se de uma criança à sua espera, no Terreiro do Paço, da primeira vez que visitou Portugal, em 1957? Na primeira fila quando chegou de carruagem? Essa criança era eu." A rainha ainda tentou retirar a sua real presença sem estragar o protocolo: "Carriage? Oh! Were you?", respondia ela em monossílabos enquanto dava curtos passinhos para trás. "Really? Oh?!"

Foi divertido, mas terá sido uma falha grave? Então o que dizer da visita do Presidente dos EUA, Donald Trump, que não falou demais, mas deixou a rainha a falar sozinha. Não foi literalmente assim pois foi pior, ultrapassou a idosa senhora durante uma revista conjunta às tropas e deixou-a para trás enquanto avançava sozinho e muito cheio de si… Se fosse noutros tempos, tinha dado uma guerra.

Esse é precisamente o ponto do professor de Harvard, Steven Pinker, que tem uma visão bem diferente das regras de etiqueta de India Knight. Defende ele que estas são as principais responsáveis pela diminuição da violência a que assistimos ao longo dos tempos. Sim, apesar das notícias que nos levam a acreditar no contrário, nunca vivemos tão seguros, nem tão pacificamente como agora. E tudo começou com as boas maneiras à mesa: "Quando aprendemos a não limpar o ranho à toalha" é a sua frase.

Com o fim do feudalismo e a concentração do poder nos reis, "a fórmula para o sucesso já não passava por ser-se o mais forte lá do sítio, mas em rumar à corte e cair nas boas graças do soberano e dos nobres que o rodeavam", explica. "Na Corte – essencialmente um governo burocrático – não havia espaço para nobres violentos, nem tempestuosos, mas antes para pessoas responsáveis em quem se podia confiar para administrar as províncias. Os nobres tiveram de alterar o seu marketing pessoal, de aprender boas maneiras para não ofender e gerar empatia. As maneiras apropriadas para a corte ficaram então conhecidas por cortesia e os manuais de etiqueta serviam precisamente para ensinar toda essa gente a comportar-se na corte."

Foi de um desses primeiros manuais que retirou o conselho para os nobres "não se assoarem à toalha" e houve muitos ilustres pensadores que se dedicaram ao tema, incluindo Erasmus de Roterdão que escreveu o primeiro manual dirigido aos mais jovens – percebem agora por que razão o programa de intercâmbio estudantil se chama Erasmus? Com o tempo, as boas maneiras estenderam-se às restantes classes sociais, começando naturalmente pela burguesia, à alta primeiro, porque tinha mais contacto com os nobres e, pouco a pouco, ao resto do povo.

Claro que India Knight não estava nem aí quando escreveu no The Sunday Times: "Sempre que vejo alguém explicar como devo colocar o guardanapo no colo dá-me vontade de ir a correr para um restaurante e pôr o guardanapo na cabeça [porque] os guardanapos são irrelevantes para a vida moderna. É muito mais importante saber o que fazer com os telemóveis." Tem razão, é claro. Estes gadgets são o maior foco de perturbação à mesa, agora que já ninguém se assoa à toalha. E, ainda por cima, é muito mais fácil saber o que fazer com eles do que com todos os talheres. Basta não lhes tocar. É assim tão simples. Pelo menos deixá-los virados para baixo, em modo de silêncio, para dar atenção às pessoas que estão sentadas connosco, não a alguém numa qualquer rede social longe dali. Passa-se o mesmo com as chamadas telefónicas, pois devem-se escolher bem quais atender e a quais podemos, perfeitamente, ligar mais tarde. E com as fotografias de comida? Quando é que 10 fotos ao mesmo prato ainda não são suficientes? Podemos começar a refeição?

Mas voltemos a Rees-Mogg e ao seu memorando porque, dias depois do mesmo ter vindo a público, o seu autor, Leader of the House of Commons, esquire, etc., foi apanhado estirado nos bancos do parlamento durante um debate do Brexit. Deixando provavelmente a escritora India Knight com um sorriso de orelha a orelha. "Sit up and show respect to this house", gritaram-lhe. E esta frase, em si, resume todas as regras de educação, de etiqueta, de boas maneiras – chamem-lhes como preferirem – que possam imaginar. Respeitar o outro, ter empatia para o perceber e colocarmo-nos no seu lugar é a regra mais importante para a convivência social. Não são os títulos, nem os guardanapos, nem os talheres, nem sequer o protocolo real. Se o fizermos, não vamos comer de boca aberta, nem falar de boca cheia, com ou sem telemóvel, não vamos insultar ninguém, nem sequer online (no trânsito, às vezes, estamos desculpados). Não vamos gritar em espaços públicos (nem fora deles), nem ser mal-educados com quem não nos interessa porque o mundo quando gira é para todos, não vamos impor aos outros as nossas fotografias "tão fixes de um restaurante top", mas vamos, por vezes, deixar as senhoras carregar as malas.

terça-feira, 18 de outubro de 2022

“Ucrânia - É imperioso sair da caixa"

 


Fez ontem cinco meses, publiquei este artigo no “Expresso”. Algumas coisas estão datadas e ocorreu a alteração de certas circunstâncias, mas, mesmo assim, hoje apetece-me relembrá-lo, porque o essencial não mudou e continuo a pensar exatamente o mesmo: :
”Esta guerra já não é apenas entre a Rússia e a Ucrânia. É cada vez maior o envolvimento, através de ajuda militar e de sanções, de muitos países que passaram a ser parte, embora por ora não beligerante, no conflito. Em moldes todavia nunca comparáveis ao sofrimento da população da Ucrânia, as respetivas sociedades estão a começar a sentir as consequências do prolongamento da guerra.
Parece não ter sentido que os países envolvidos no apoio à Ucrânia fiquem a aguardar o resultado, cada vez mais duvidoso, de um processo negocial, aparentemente suspenso, entre Kiev e Moscovo. Há dimensões do conflito, como fica evidente na questão das armas nucleares, que vão muito para além da situação concreta da Ucrânia, embora com ela interligada.
António Guterres disse hoje que não parece haver condições para um cessar-fogo bilateral. Porquê? Porque entende que a Rússia pretende estabilizar alguns dos seus ganhos e não completou o cerco de isolamento que pretende fazer à Ucrânia pelo sul. E também porque o secretário-geral da ONU pressente que a Ucrânia, forte do apoio militar crescente com que conta reverter a sorte do conflito, avalia que as próximas semanas lhe podem trazer vantagens. Um dos dois contendores está enganado na sorte que o relógio lhe pode trazer, mas só no final se saberá qual.
É imperioso sair do impasse da situação no terreno. Os países ocidentais, mantendo-se sempre firmes no apoio que dão à Ucrânia - essa é, alías, a expressão essencial do seu poder neste contexto - deveriam abrir uma frente negocial direta com Moscovo. Um conflito que pode escalar para proporções (in)imagináveis não pode ficar dependente exclusivamente dos eventuais resultados de uma diplomacia ucraniana acossada pela agressão e pela expectativa ansiosa da evolução da situação militar no seu terreno.
O envolvimento negocial ocidental deveria, como é óbvio, associar plenamente a Ucrânia e ter no centro os seus legítimos interesses de soberania, mas igualmente não poderia deixar de ponderar as consequências económicas, e em breve também sócio-políticas, decorrentes do efeito “boomerang” das sanções e dos previsíveis problemas decorrentes da situação dos muitos refugiados que não poderão ainda regressar à sua terra . Há que ter consciência, e aparentemente ela parece não existir, de que o momento ótimo de consenso entre os aliados vai começar a diluir-se, por virtude dos efeitos do inevitável desgaste de vontade, em vários paises europeus.
O mundo que Vladimir Putin conhece é o da força. Ora o ocidente tem hoje, nas suas mãos, dois instrumentos negociais que podem ser decisivos para qualquer compromisso: a sua capacidade e determinação em poder continuar a armar a Ucrânia, colocando-a em condições de ir “empatando” a guerra, e o fortíssimo pacote de sanções, que, recordo, foi posto em prática por virtude da agressão russa, pelo que parte do qual pode ser usado como moeda de troca na hipótese de um eventual compromisso.
Macron mantém o número de telefone de Moscovo. Draghi deu sinais, em Washington, de que favorece um caminho de um diálogo exigente, sempre sob uma posição comum. Berlim, nesta sua fase hesitante, conta bastante pouco para ousadias. O jingoísmo descabelado de Boris Johnson ecoará o que Washington ditar. É nos Estados Unidos que reside a chave de um eventual novo tempo neste processo, pelo que compete aos europeus lembrar-lhes que é só deste lado do Atlântico que, por agora, continua a guerra.
A História mostra que, para pôr termo a um conflito, ou se derrota totalmente o inimigo (e a Rússia não é derrotável, enquanto potência, como sabe quem sabe destas coisas) ou se fala com ele para ir aferindo das hipóteses de um acordo. Pensar que o tempo corre sempre a nosso favor é uma ingenuidade perigosa.”


Francisco Seixas da Costa
 



sábado, 15 de outubro de 2022

Lei dos Sefarditas entregou Portugal numa bandeja

Em 1497, alguns judeus sefarditas, por firme convicção religiosa, abandonaram Portugal, com dignidade. Não permitamos que outros se aproveitem da sua memória e aviltem os seus sagrados valores.


Paulo de Morais 29 de Junho de 2020


A Lei da Nacionalidade, que veio permitir a descendentes de judeus sefarditas adquirir nacionalidade portuguesa, sem quaisquer limites, é uma lei bondosa, com pressupostos generosos; concede a nacionalidade aos “herdeiros” dos judeus expulsos por D. Manuel I em 1497. Mas, na prática, esta Lei tem-se revelado um erro crasso, pois transformou-se num incentivo ao tráfico descontrolado de passaportes.

Quando D. Manuel expulsou os judeus sefarditas não imaginaria certamente que, mais de 500 anos volvidos, ainda se sentiriam efeitos dessa sua retumbante decisão. À época, aquando da publicação do édito de expulsão, a maioria, dezenas de milhar, optaram por se converter ao cristianismo, tornando-se cristãos-novos. Foram muto poucos os que abandonaram o reino, segundo Alexandre Herculano. Penso que terá sido a percepção (errada!) de que estes poucos sefarditas teriam escassos sucessores que inspirou a alteração à Lei que, desde 2015, atribui a nacionalidade portuguesa a todos os descendentes dos judeus então expulsos. Foi um colossal erro de cálculo: os descendentes dos que saíram podem hoje ser da ordem das centenas de milhões, volvidas que são mais de 15 gerações.
Sendo quase ilimitado o número de cidadãos em condições de obter a cidadania portuguesa, pela via da descendência sefardita, é expectável que a cidadania seja atribuída apenas aos que tenham alguma ligação a Portugal: a quem ostente um apelido português e possua o domínio do ladino, a língua que nos aproxima, critérios que a Lei considera factores de conexão efectiva ao país. Mas, na prática, não tem sido assim! Nos últimos anos, apenas se tem imposto aos candidatos à nacionalidade a apresentação de um certificado passado pela Comunidade Judaica Portuguesa. Assim, usando este alçapão, muitos milhares obtiveram a nacionalidade portuguesa de pleno direito.


Assistiu-se até a uma agressiva campanha de propaganda, visando a venda de passaportes portugueses, junto dos muitos milhões de potenciais interessados. A Comunidade Judaica do Porto anunciou profusamente, nos últimos anos, que atribuiria certificados “a quem não tivesse apelido português e não conhecesse o ladino”, anunciando mesmo que “nem sequer seria necessário o candidato vir pessoalmente a Portugal para obter a nacionalidade”. Esta Comunidade – sob o domínio do jurista João Roseira Garrett – tornou-se assim um dos maiores prescritores de passaportes portugueses. Para tal, Garrett muito tem beneficiado do apoio de sua tia, uma das maiores defensoras da lei vigente, Maria de Belém Roseira. Mas também algumas sociedades de advogados exploram este verdadeiro filão, como a Mayer Jardim, em cuja página de abertura de site se publicita precisamente a venda de nacionalidade portuguesa.

Esta legislação facilitista foi desvirtuada e transformou-se num instrumento de tráfico de passaportes, através do qual se mercantiliza a condição de cidadão português


A agressividade comercial deste negócio acentuou-se nos últimos meses. Porquê? Porque Espanha, que até 2019 também concedia nacionalidade aos descendentes de sefarditas da Castela e Aragão (embora em condições muito mais rigorosas), cancelou essa possibilidade. Tal facto tornou mais apetecível e mais valioso o passaporte português, agora a única via de obter a condição de cidadão europeu. Não é pois de admirar que na América Latina, na Turquia e em Israel se tenha intensificado a “venda” agressiva de passaportes portugueses. Há empresas que vão ao ponto de os publicitar em anúncios de rua ou até de apresentar Portugal numa bandeja, como sucede com a israelita Portugalis. Como o passaporte português concede cidadania europeia, há sites a anunciar que, com este documento oficial, se “pode obter benefícios fiscais na Europa, entrar nos Estados Unidos sem visto, trabalhar e viver na Europa indefinidamente e estudar de graça em instituições de ensino europeias”. Bem valioso!

Seduzidos por estes apelos, só em 2019, solicitaram passaporte, através deste sistema, mais de 25.000 candidatos, a maioria dos quais não conhece Portugal; já nos primeiros quatro meses deste ano, os pedidos de nacionalidade por via da descendência de judeus sefarditas foi o dobro dos pedidos de nacionalidade por todos os outros motivos. Esta legislação facilitista foi assim desvirtuada e transformou-se num instrumento de tráfico de passaportes, através do qual se mercantiliza a condição de cidadão português.

Em 1497, alguns judeus sefarditas, por firme convicção religiosa, abandonaram Portugal, com dignidade. Não permitamos que outros, cuja religião é apenas o dinheiro, se aproveitem da sua memória e aviltem os seus sagrados valores.

A árvore e a floresta

As histórias dos desterrados da Inquisição falam-nos de dor e injustiça, mas também de transformação da tragédia individual em força. Não deixemos que uma pequena e mesquinha árvore esconda a imensa floresta que dignifica o nome de Portugal no mundo.



Esther Mucznik 21 de Maio de 2020

As histórias que hoje vos vou contar são pequenos excertos de vidas narradas na primeira pessoa por homens e mulheres que solicitaram a cidadania portuguesa ao abrigo da Lei da Nacionalidade para os descendentes dos judeus sefarditas. Elas fazem parte da nossa história, da História de Portugal. Por razões óbvias, os seus nomes actuais não constam deste artigo. Mas “ouçam-nas”, por favor:

Requerente israelita: “Nasci numa família oriunda de Salónica. A família da minha mãe emigrou para a Palestina em 1934. Os meus avós paternos, também de Salónica, foram deportados para Auschwitz, onde foram mortos. O meu pai foi o único sobrevivente de toda a família, após ter sido forçado a integrar a ‘marcha da morte’ com destino ao campo de Dachau. Depois da libertação acabou por conseguir imigrar para Israel, onde casou com a minha mãe em 1951.”

“A nossa família é uma família típica sefardita. Falamos Ladino, celebramos as festas judaicas de acordo com a herança sefardita, cantamos as canções em Ladino. Sinto que somos provavelmente a última geração da língua ladina, língua preservada pela minha família, transmitida através de gerações desde a expulsão de Espanha e Portugal, e sempre saudosa da pátria antiga. Para a minha família, obter hoje a cidadania portuguesa é restabelecer os vínculos com as nossas origens, duplamente despedaçadas, primeiro de Portugal e depois de Salónica. É o resgatar da história dos judeus sefarditas.”


Requerente sul-africano: “Nasci na África do Sul, em 1954. Nos papéis que a minha mãe me deixou, estava uma árvore genealógica familiar traçando as minhas raízes desde há longos séculos. Essa árvore relaciona-me com a família Abendana Belmonte que fugiu de Portugal no tempo da Inquisição, indo para diversos países da Europa, até chegar finalmente à África do Sul.”

Segundo o estudo do genealogista, a família do requerente tem de facto origem no século XVII num casal de cristãos-novos, Diogo Nunes e Guiomar Vaz. Em Amesterdão, para onde se refugiou, Diogo tomou o nome de Jacob Belmonte. Teve, juntamente com Aarão Querido, com quem estava ligado por laços familiares, um papel fundamental na fundação da Sinagoga Portuguesa de Amesterdão.

Mais tarde, vamos encontrá-lo em Hamburgo, na comunidade portuguesa, onde um século e meio depois, em 1769, a bolsa ainda integrava no rol de corretores nomes de portugueses, entre os quais o de Jacob Abendana Belmonte. Este nome mantém-se durante gerações até meados do século XIX, quando os irmãos Isaac e Lea emigram para a Suécia. É aí que Lea conhece, em Estocolmo, aquele que será o bisavô sueco do requerente. Os seus descendentes acabarão por se fixar em 1934 na África do Sul, onde nasce o actual requerente da nacionalidade portuguesa. Escreve este último: “Há uns anos visitei Portugal e apaixonei-me pelo país e pelas pessoas. A possibilidade de recuperar a cidadania portuguesa dos meus antepassados e, em consequência, o sentimento de pertença ao lugar de origem da minha família tantos séculos atrás, foi uma grande alegria.”
 
Requerente israelita: “A minha mãe, Rita Mendes-Flohr (nome de solteira, Mendes Chumaceiro), nasceu e cresceu na ilha das Caraíbas Holandesas de Curaçao, enquanto membro da comunidade judaica portuguesa local, Mikve Israel Emanuel ‘Snoa’. Todos os seus antepassados foram membros desta comunidade. Várias destas genealogias estendem-se até Portugal. Em 1854, o pai do bisavô da minha mãe, também Chumaceiro, teve a honra de receber aquele que viria a ser o futuro Rei de Portugal, D. Pedro V, na Comunidade Judaica Portuguesa de Amesterdão, o qual comentou: ‘Faz-me parecer que estou na minha própria terra em Portugal.’ O meu bisavô, Aharon Mendes Chumaceiro, tornou-se rabino da Comunidade Sefardita portuguesa de Curaçao, tendo depois voltado para a Holanda. Enterrado no cemitério judaico de Ouderkerk, a inscrição na sua sepultura está em português. Nas viagens que fiz a Portugal, apaixonei-me por este encantador país e seu povo, consciente de ser a terra dos meus antepassados.”

Requerente brasileira: “Ser judia não é apenas ter uma religião, é muito mais do que isso. Significa uma história, um laço com o passado, mas também significa um presente. Tudo isso chegou até mim como herança de uma família que durante a Inquisição foi expulsa de Portugal mas manteve a sua tradição na Turquia ao longo dos séculos e, posteriormente, no Brasil. Em 1998, fiz uma viagem com a minha mãe e a minha irmã a Esmirna onde encontrámos parentes que lá ficaram, procurámos a casa da família (já destruída) e comunicámos uns com os outros, eles em ladino, eu em português/espanhol. E foi com alegria que descobri que as duas famílias continuavam amigas até hoje.”

Requerente marroquina: “Não sei bem explicar porquê – sempre quis regressar a Portugal, mesmo sem ter nascido lá. Em 2006 convenci o meu companheiro a viajar para Portugal e caminhar por onde estavam as minhas raízes portuguesas. Passámos por todas as antigas judiarias, cemitérios e sinagogas e percebemos o quanto os vínculos foram mantidos e por que ainda hoje nos reunimos na tentativa de preservar a nossa história. Porém, durante todo esse tempo, a dor da expulsão também nos perseguiu e o reconhecimento da nacionalidade, para mim, é muito mais do que um simples documento, representa a alegria de voltar e sentir uma grande injustiça ser reparada.”

Estes são pequenos exemplos de testemunhos de requerentes da naturalização ao abrigo do Decreto-Lei promulgado em 2015. Testemunhos diminutos, mas muito representativos dos milhares de pedidos que chegam a Portugal ao abrigo da lei. Precisamente a lei que agora se pretende alterar impondo aos requerentes dois anos de estadia em Portugal, imposição agora substituída pela exigência de “uma ligação efectiva à comunidade nacional”.


Devo dizer que não sei bem o que significa em concreto esta nova exigência. Mas sei que a argumentação que a sustenta está errada. Com efeito, um dos argumentos de Constança Urbano de Sousa, vice-presidente do grupo parlamentar do PS, e autora destas propostas de alteração do Decreto-Lei, é o de que este visava promover o regresso a Portugal e “muitos nem sequer chegam a vir a Portugal, não falam português, nem têm qualquer ligação”. Pois, de facto, três ou quatro séculos depois, seria de facto um milagre continuarem a falar português, apesar de na sua maioria o terem tentado. Mas o principal é que a lei nunca visou “o regresso a Portugal”, o que seria uma total incongruência face a pessoas forçadas a construir as suas vidas durante gerações fora de Portugal. O espírito da lei, tal como foi dito e o entendemos, era fazer justiça, devolvendo uma nacionalidade aos que dela foram violenta e iniquamente destituídos. Não era uma troca de favores.

Em segundo lugar, Constança Urbano de Sousa argumenta com o facto de que pode “nem haver ligação do antepassado ao território português, podia ser espanhol”. Pode, claro. Mas quem conhece um pouco de história sabe que a partir de 1492, com a vinda para Portugal de aproximadamente 60 mil judeus expulsos de Espanha pelos Reis Católicos, o destino dos judeus espanhóis e portugueses passa a ser comum. Com uma agravante: os portugueses eram menos, cerca de 40 mil, e contrariamente a Espanha, só em 1536 será estabelecido o Tribunal da Inquisição em Portugal. Tempo suficiente para os filhos e netos dos refugiados de Espanha nascerem em Portugal e, em consequência, serem considerados portugueses.

As histórias dos desterrados da Inquisição falam-nos de dor e injustiça, mas também de transformação da tragédia individual em força. São histórias de vida que levaram o nome de Portugal a todo o mundo. Não deixemos que uma pequena e mesquinha árvore esconda a imensa floresta que dignifica o nome de Portugal no mundo.

A nacionalidade por naturalização dos descendentes de judeus sefarditas: em busca de um equilíbrio de valores e princípios

Dá-se plena expressão ao nobre objetivo da Lei de 2013, de promover o regresso dos descendentes de judeus sefarditas ao seio do povo português.

Constança Urbano de Sousa 20 de Maio de 2020


Muito se tem escrito e dito sobre proposta do PS que visa alterar o regime especial de naturalização dos descendentes de judeus sefarditas, adjetivando-a, incompreensivelmente, de antissemita ou qualificando-a como um erro histórico.

O primeiro equívoco reside logo na perceção de que se trata de dar a nacionalidade portuguesa a judeus sefarditas, ou seja, judeus originários da Península Ibérica. Tal não é assim, pois a lei aplica-se aos seus descendentes, independentemente de serem, hoje, judeus, cristãos, muçulmanos ou simplesmente não terem nenhuma religião. Em segundo lugar, não se pretende revogar este regime especial (o que seria um erro histórico), mas tão só densificar o seu objetivo que é e sempre foi “promover o retorno dos descendentes dos judeus expulsos ou dos que fugiram do terror da Inquisição ao seio do seu povo e da sua nação portuguesa”, como se lê no projeto de Lei do PS que deu origem a este regime, em 2013. Ou, como pretendeu o CDS-PP, concretizar o genuíno desejo dos descendentes de judeus sefarditas de recuperar a nacionalidade portuguesa dos antepassados, que esbarrava no facto de a Lei prever uma forma de naturalização puramente discricionária de descendentes de portugueses, para além da dificuldade inerente a uma prova documental que teria de recuar mais de 500 anos.


Por isso, em 2013, PS e CDS-PP propuseram, em nome de uma reabilitação ou justa reparação histórica, um regime especial que permite conceder a nacionalidade portuguesa aos que descendem de judeus sefarditas com base em elementos de prova objetivos como o apelido, o idioma familiar (ladino), a genealogia ou a memória familiar.

E foi este regime que permitiu a milhares de descendentes de judeus originários da Península Ibérica adquirir a nacionalidade portuguesa, pouco importando se, hoje, são judeus, se alguma vez visitaram Portugal ou se falam uma palavra de português, já que a lei a este respeito não faz qualquer exigência.


Por outro lado, ninguém pode ignorar que, muitas vezes, a mais nobre das intenções corre o risco de ser desvirtuada. O facto de Portugal estar integrado na União Europeia dá à nacionalidade portuguesa uma dimensão adicional inerente à Cidadania Europeia, permitindo a livre circulação e direito de residência em qualquer Estado-Membro e a isenção de vistos para entrar em cerca de 185 países do Mundo. E esta é uma vantagem inegável de quem tem um passaporte português, mas da qual também decorrem obrigações adicionais perante estes nossos parceiros.

Que o diga Blaise Baquiche, jovem britânico, que contou, recentemente, a sua “jornada pessoal para recuperar o passaporte europeu” ao The New European. Filho de mãe católica, educado numa escola anglicana, sabia que a família do pai era sefardita oriunda do Egipto. Como confessa, até ao “Brexit” nunca se sentiu judeu sefardita, mas foi esta sua condição de descendente que lhe permitiu alcançar o seu objetivo, manter-se cidadão da UE. Preferiu pedir a nacionalidade portuguesa, “por ser mais fácil que a espanhola”, pois o processo especial de naturalização de descendentes de judeus sefarditas em Espanha, que terminou em outubro de 2019, impunha requisitos adicionais, como a aprovação num teste de conhecimento de língua espanhola e prova de integração na sociedade espanhola, que ele não poderia cumprir. Assim, provou que era descendente de judeus sefarditas através da Ketuba (certificado matrimonial adornado em estilo sefardita, usado na comunidade do Cairo) dos seus avós paternos, originários do Egipto. Confessa que sentiu estranheza por pedir a nacionalidade de um país com o qual não tem qualquer conexão cultural ou emocional, mas esta foi a única via que encontrou para manter todos os seus direitos de cidadão da UE. Se Blaise fosse neto de um emigrante português originário de Bragança, do Porto ou dos Açores não teria, hoje, o seu desejado passaporte europeu, pois teria de ter provado uma efetiva ligação à comunidade nacional, materializada no conhecimento da língua portuguesa e em contactos regulares com Portugal, o que só é obrigatoriamente reconhecido se residir aqui 5 anos ou, sendo estudante, residir três anos (artigo 1.º e artigo 10.º-A do Regulamento da Nacionalidade).
 


A história de Blaise é semelhante à de várias pessoas que pedem a nacionalidade portuguesa por esta via. Porém, sendo a nacionalidade a expressão de um qualquer vínculo entre uma pessoa e a comunidade a que se pertence (porque se nasceu no território, porque o progenitor é português, porque se é membro de uma família portuguesa, porque aqui se reside e se partilham as venturas e desventuras de um Povo, porque com a comunidade se tem uma qualquer ligação efetiva e genuína) não deixa de causar apreensão que a nacionalidade portuguesa seja representada principalmente como um vantajoso passaporte europeu. Naturalmente existe também a história de muitos descendentes de judeus sefarditas, que sentem uma ligação afetiva e genuína a Portugal e à pátria dos seus ancestrais antepassados. E foi para eles que esta Lei foi pensada, tendo-lhes permitido, durante um período de sete anos, a possibilidade de concretizarem o seu desejo genuíno de recuperar a nacionalidade dos antepassados, sem necessidade de falar português ou sequer de visitar Portugal. Mas a verdade é que tal como está formulada, a Lei também permite dar a nacionalidade portuguesa a quem não tem qualquer ligação efetiva ou mesmo afetiva ao País. Basta fazer como o Blaise ou pagar os serviços de alguém que o faça.

Pedir a demonstração de elementos que comprovem uma ligação atual a Portugal e, portanto, um interesse genuíno em fazer parte integrante do Povo português, não me parece ser um sacrifício, antes é uma consequência lógica de tal sentimento de pertença. E não se diga que a exigência de uma tal ligação, aferida de forma objetiva, anula o objetivo da lei, ou que a medida é antissemita. Por um lado, preserva-se um regime especial e mais vantajoso que permite a um descendente de judeu sefardita aceder à nacionalidade, fazendo, assim, uma discriminação positiva, em nome da conciliação histórica. Por outro lado, dá-se plena expressão ao nobre objetivo da Lei de 2013, iniciada em boa hora por Maria de Belém e José Ribeiro e Castro, de promover o regresso dos descendentes de judeus sefarditas ao seio do povo português e retomar com eles um laço de ligação genuína e efetiva, que terá expressão na nacionalidade portuguesa que não é, nem nunca poderá ser, apenas um passaporte europeu.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico

“Portugal é um país bom para se ser judeu”

“Não há um anti-semitismo palpável entre os portugueses”, constata Samuel Levy, um empresário natural dos Estados Unidos, em cuja família se somam 12 pedidos de nacionalidade portuguesa. Razões sentimentais aliam-se às oportunidades de negócio, naquilo que Levy descreve como “uma onda crescente da presença judaica em Portugal”.

Natália Faria 2 de Setembro de 2019

Samuel Levy acredita que o país está a assistir a "uma onda crescente da presença judaica"

“Ser judeu em Portugal é fácil”, atira Samuel Levy, quase no fim de uma curta conversa sobre os motivos que o levaram a requerer a nacionalidade portuguesa com base na sua ancestralidade sefardita. Depois, este empresário de 57 anos, natural dos Estados Unidos, retoma o diálogo para emendar a afirmação inicial: “Fácil não é, porque obter comida kosher é mais difícil, dado que a comunidade é pequena. Mas somos aceites e não há um anti-semitismo palpável entre os portugueses. Pode-se dizer antes que Portugal é um país bom para se ser judeu.”

Descontados os antepassados portugueses, a ligação de Samuel Levy a Portugal remonta a 1983, sendo muito anterior, portanto, à lei que em 2015 passou a conceder a nacionalidade portuguesa por naturalização aos descendentes dos judeus sefarditas. “Na altura, enquanto estudante universitário, decidi ir para Coimbra, onde frequentei um curso de língua e cultura portuguesa para estrangeiros. Tive sempre muita curiosidade sobre o mundo lusófono, por causa das minhas tradições familiares: o meu pai já nasceu na Macedónia, mas a sua família descendia dos Maias, um nome conhecido entre os judeus portugueses, e o ladino que ele falava tinha uma pronúncia portuguesa”, recorda.


Concluído o curso de Direito nos EUA, Samuel nunca mais se desligou do mundo lusófono. De Nova Iorque, onde nasceu, haveria de trabalhar no Rio de Janeiro e depois em Moçambique, onde foi parar integrado numa missão de manutenção da paz. Foi lá que se fez empresário, no ramo da advocacia mas também no do investimento imobiliário, além de na agricultura e conservação da natureza. Adquirida a nacionalidade moçambicana, a ligação a Portugal reforçou-se quando, há cerca de duas décadas, fixou residência em Cascais e, mais tarde, procurou, com a mulher, uma casa para restaurar em Castelo de Vide e que hoje funciona como unidade de alojamento local.


“Estávamos à procura de uma propriedade numa zona mais recôndita para fazermos um pequeno negócio de turismo e, quando chegámos a Castelo de Vide, a ligação foi imediata, não só pela herança judaica, que lá é muito visível, mas por ser um município que valoriza muito a sua história no geral. Eu tenho um péssimo sentido de orientação e a minha esposa até costuma gozar comigo porque o único ponto em Portugal onde sei sempre onde estou é Castelo de Vide. Nunca me perco. É como se tivesse nascido lá”.


Entre Cascais e Castelo de Vide, Samuel Levy diz encontrar comunidades judaicas pequenas onde se sente em casa. “Sinto que aqui a questão da reconciliação entre a identidade portuguesa e a judaica nunca surgiria porque elas são inseparáveis. Os judeus constituem uma parte do mosaico que é Portugal e a vida judaica em Portugal não é algo que esteja na história, sem expressão contemporânea. Pelo contrário, está em pleno crescimento porque aqui os judeus se sentem muito bem-vindos: há serenidade na sociedade portuguesa, estabilidade, e as necessidades religiosas dos judeus são cada vez mais fáceis de satisfazer”.


Tudo conjugado, Samuel Levy diz acreditar que os pedidos de nacionalidade portuguesa por parte de descendentes de judeus sefarditas vão continuar a chegar a bom ritmo. “Estamos a fazer parte de uma onda crescente da presença judaica em Portugal”, resume. No seu caso, dois dos três filhos já a pediram, além de nove primos, dos quais sete já a obtiveram. Razões? “No caso dos mais velhos, são sentimentais, mas os meus primos mais novos já começaram a investigar negócios em que possam investir, nomeadamente na área informática, porque Portugal tem programadores muito talentosos e o conhecimento deles é aplicável em todo o mundo”.