terça-feira, 29 de novembro de 2022

Francesc Vendrell (1940-2022)

 

Francesc Vendrell

Francesc fez tudo o que pôde para ajudar tantos que resistiam às mais sinistras opressões. Nunca cessou de pôr o seu saber e engenho ao serviço da ONU e da UE, pela paz e por um mundo melhor.



Ana Gomes 29 de Novembro de 2022


Abordou-me desconcertantemente, questionando a nossa estratégia sobre Timor-Leste, numa das minhas primeiras Comissões dos Direitos Humanos da ONU, em Genebra, nos idos de 87. Alguém me soprara que aquele sujeito, com inglês e ar de diplomata argentino, era funcionário das Nações Unidas…quando soube o nome, reconheci-o da telegrafia da Missão Permanente em Nova Iorque, que durante anos selecionara para o Presidente Eanes. Era o Francesc Vendrell, do Secretariado da ONU! Encaixei o remoque, até porque nós já estávamos a mudar a estratégia por Timor-Leste. Passámos a conversar sempre que o Francesc vinha a Genebra ou eu ia em trabalho a Nova Iorque.

Timor-Leste não parava de nos sobressaltar: o massacre de Santa Cruz, em Novembro de 1991, a prisão e o julgamento de Xanana Gusmão em 1992, sucessivos incidentes com listas de mortos, feridos, presos. Em 1995, conversámos mais longamente, internados em Wilton Park, numa conferência com muitos altos quadros indonésios e académicos britânicos e americanos sobre o tema “Indonesia at 50” (regressada à base no MNE, eu integrava o gabinete dedicado a Timor-Leste, chefiado por Rui Quartim Santos). Em 1993, Francesc passara a chefiar o Departamento da Ásia e Pacífico no Departamento de Assuntos Políticos da ONU, em Nova Iorque, e estava a congeminar o processo AIETD (All Inclusive East Timorese Dialogue), que reuniria timorenses a favor e contra a integração em alguns encontros em capitais europeias.

A experiência na Papua-Nova Guiné, antes de iniciar a sua carreira na ONU, tinha-o traumatizado: era para Francesc intolerável que as Nações Unidas deixassem repetir um expediente como o “Act of Free Choice”, que servira para integrar formalmente aquele território na República Indonésia em 1969: nenhum processo de autodeterminação se poderia voltar a fazer à revelia do povo. Por isso, nunca deixara o Secretariado da ONU engolir a patranha da “Declaração de Balibó” (assinada em Bali, em 30 de Novembro de 1975) e punha toda a sua sabedoria e experiência política na procura de soluções criativas que passassem por entendimentos e compromissos entre forças realmente representativas dos povos.

Além dos princípios e valores da Carta das Nações Unidas e dos Direitos Humanos que convictamente defendia, Francesc acreditava no povo, na humanidade: era um orgulhoso catalão, sofrera às mãos da repressão franquista, descobrira a democracia e a liberdade na Europa e nos EUA. Sabia puxar, apoiar, juntar e promover os mais capazes e empenhados. Comprazia-se em manobrar no labirinto palaciano das Nações Unidas, sem desviar o foco das causas da construção da paz, da libertação dos povos e dos direitos humanos que servia: que o digam o Nobel da Paz José Ramos-Horta e outros ativistas de resistências e latitudes várias, que sabiam poder sempre a ele recorrer para conseguir entrar nos corredores “onusinos” ou nos meandros das negociações mais secretas.

Nos anos de 1997 e 1998 tornámo-nos amigos. Não eram só as eternas negociações bilaterais sobre Timor-Leste sob a égide do secretário-geral (então Kofi Annan, um colega, um homem da casa para o Francesc) que nos aproximavam: eu integrava a delegação portuguesa ao Conselho de Segurança, que tratava de muitos assuntos que ele acompanhava, como diretor Ásia-Pacífico. Ainda por cima, vivíamos ambos perto do Lincoln Centre: conspirávamos amiúde, com queridos amigos como Tamrat Samuel e Sidney Jones, pelos restaurantes da zona, criteriosamente escolhidos pelo gourmet que ele era. E, sempre que podíamos, afundávamo-nos em filmes persas, japoneses e franceses nas salas do Lincoln Plaza. E ríamos muito, a gargalhada do Francesc era infecciosa…

Quando o ditador Suharto caiu, naquele 21 de Maio de 1998, brindámos com o champanhe que há anos eu reservava para o Pinochet (foi preso meses mais tarde). Tudo ia mudar e aceleradamente: o “estatuto de autonomia”, que ele e o Tamrat haviam cozinhado connosco (por proposta do Fernando Neves) para manter a bola a rolar nas estéreis negociações bilaterais, ia poder ser posto à consideração do povo de Timor-Leste, as Nações Unidas haveriam de finalmente assentar arraiais em Timor. E inesperadamente, até o interino Presidente Habibie ajudou, pondo irreversivelmente na agenda do Acordo com Portugal (5 de Maio de 1999) o referendo – que, a 30 de Agosto de 1999, haveria de consagrar a autodeterminação de Timor-Leste.

Tal como tudo o que durante quase duas décadas mantivera Portugal e a Indonésia algemados ao diálogo de surdos das “negociações bilaterais sob a égide do secretário-geral da ONU”, foi também Francesc Vendrell quem imaginou e determinou o que se seguiria: foi ele quem instruiu o embaixador Jamsheed Marker sobre Timor-Leste, foi ele quem convocou o seu velho amigo Ian Martin para montar a UNAMET que organizaria o referendo, foi ele quem nomeou o dedicado Tamrat para representar a ONU/UNAMET em Jacarta. Passei a recebê-lo, amiúde, em Jacarta. A articulação, formal e informal, com ele e os seus homens no terreno foi tão intensa como com Lisboa e fez muita diferença para a eficácia das nossas missões e para lograrmos o objetivo comum: facultar ao povo timorense a possibilidade de finalmente determinar o seu destino. Temos uma fotografia emocionados e abraçados a quatro (com o Ian e o Tamrat), na noite daquele 20 de Maio de 2002, em Taci-Tolo, na cerimónia da Declaração da Independência de Timor-Leste.

Atingido o objetivo, o Francesc passou a dedicar-se a outro dos intrincados problemas internacionais que há décadas acompanhava no DPA: em 2000, foi nomeado representante pessoal do secretário-geral das Nações Unidas para o Afeganistão. A partir de 2002, passou a ser representante especial da União Europeia para o Afeganistão, e eram sempre iluminantes as suas vindas à Comissão de Relações Exteriores do Parlamento Europeu.

Visitei-o em Cabul em 2008, aproveitando uma missão do PE: almoçámos frente ao jardim de rosas de que se orgulhava, em conversa intensa e extensa sobre aquele país e povo que ele amava, regada pelo bom vinho que ele nunca dispensava… muito do que pus no relatório da missão foi ali colhido, no saber crítico que ele nunca se tolhia de partilhar.

Depois de deixar o Afeganistão e passar a lecionar na Universidade de Princeton (EUA), na SAIS em Londres e na John Hopkins em Bolonha, todos os anos o Francesc vinha a Bruxelas: continuámos a pôr a “escrita em dia” sobre Timor-Leste, o Afeganistão, a UE, Portugal, a Catalunha, o mundo e os nossos amigos. Ríamos muito, sempre. Eu levava-lhe livros, vídeos, slides, miniaturas – o que quer que encontrasse nas lojas do aeroporto sobre os elétricos de Lisboa: ele era apaixonado e sabia tudo sobre todos os elétricos e linhas de elétricos do mundo inteiro. Veio mesmo algumas vezes a Lisboa para me ver e… irmos andar de elétrico.

A última vez que estivemos juntos foi em Díli, Timor-Leste, em finais de Agosto de 2019, para a celebração dos 20 anos do referendo. Tempos antes eu tinha escrito ao Presidente Marcelo Rebelo de Sousa a sugerir que o Francesc, o Ian Martin e o Tamrat Samuel fossem agraciados com condecorações pelos inestimáveis serviços prestados a Portugal no apoio porfiado e decisivo à causa timorense. No dia 31 de Agosto de 2019, na Embaixada de Portugal em Díli, o presidente da Assembleia da República Eduardo Ferro Rodrigues impôs-lhes as insígnias. O Francesc vibrou com a condecoração e explicou que o sensibilizava mais receber a Ordem da Liberdade, do Portugal da Revolução dos Cravos que prenunciara a libertação também de Espanha: “You see, I am from Catalonia…”

Ser da Catalunha explica muito do que foi Francesc Vendrell e da tenacidade com que se bateu pelas suas convicções, por valores e princípios, pela autodeterminação dos povos, por sociedades tolerantes, democráticas, livres e cultivadoras da diversidade.

Dedicadamente, Francesc fez tudo o que pôde para ajudar tantos que resistiam às mais sinistras opressões. E, com honestidade desarmante, nunca cessou de pôr o seu saber e engenho ao serviço da ONU e da UE, pela paz e por um mundo melhor.

RIP!, querido Francesc. Um dia destes, prometo, vou fazer a tua voltinha de elétrico por Lisboa!

Francesc Vendrell nasceu em Barcelona em 1940 e morreu em Londres, a 27 de novembro de 2022

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Texto publicado pelo nosso Amigo Major-general, Raul Luís Cunha.

 

Major-general, Raul Luís Cunha.

Visto, traduzido e adaptado de um 'post' algures num dos canais do 'telegram' e aqui transcrito para vossa informação:

O ataque a Sebastopol e a suspensão do acordo dos cereais:
Quem beneficia com isso?
Analisando os eventos ocorridos ontem no ataque a Sebastopol, chegamos a algumas conclusões muito interessantes. Não restam dúvidas de que o ataque foi organizado pelas forças armadas da Ucrânia, como evidenciam os vídeos por eles publicados e o simbolismo na escolha da data do ataque – tudo aconteceu na véspera do aniversário do início da defesa de Sebastopol e do Dia das Forças Navais de Superfície (ambos comemorados em 30 de outubro). E fazer coincidir ataques terroristas com datas significativas tornou-se numa marca registada de Kiev.
É óbvio que o objetivo do ataque era interromper o acordo dos cereais, vista a necessidade de o prorrogar que havia sido anunciada no dia anterior por várias partes, incluindo pelo secretário-geral da ONU. Importa salientar que no seu discurso no Clube Valdai, Vladimir Putin também se focou em Odessa, que se poderia transformar tanto na “maçã da discórdia” quanto num símbolo da resolução do conflito. É possível que o acordo dos cereais também tenha sido entendido nesse contexto.
O bom senso faria com que fosse considerado prejudicial para a Ucrânia romper o acordo dos cereais, pois o mesmo garante o trabalho dos portos de Odessa e permite lucrar com a exportação dos cereais. Mas, entretanto, a declaração do Ministério da Defesa russo sobre o envolvimento da Grã-Bretanha na sabotagem comprova mais uma vez que Kiev continua a actuar no interesse do Ocidente, muitas das vezes para seu próprio prejuízo. Dada a presença de um avião não-tripulado dos EUA na área do Mar Negro no momento do ataque, declarar que Washington nada sabia sobre essa operação especial de Londres, é, no mínimo, um disparate.
Vale a pena notar que não só a Turquia está muito interessada no acordo dos cereais, mas também os países da UE, que de facto acabam por ser uma das partes afectadas pela suspensão do corredor para os cereais. A UE também sofreu não menos perdas quando o gasoduto Northern Stream foi sabotado.
Confirma-se assim, mais uma vez, a tese de que os EUA e a Grã-Bretanha estão a travar a sua guerra híbrida não apenas contra a Rússia, mas também contra os países da UE. Privar a Europa de qualquer tipo de significado em termos geopolíticos e económicos, por mais estranho que possa parecer, é um dos principais objectivos dos anglo-saxões na guerra na Ucrânia.

domingo, 27 de novembro de 2022

Na morte do “bibota” Fernando Gomes, a minha estrela de cinema

  

Fernando Gomes tinha 66 anos HAROLD CUNNINGHAM/GETTY IMAGES


Fernando Gomes tinha aquele ar de miúdo-cavalheiro, desprovido da doença narcísica que torna as estrelas cansativas e pouco interessantes.



Ana Sá Lopes 26 de Novembro de 2022


Fiquei triste e abananada com a morte de Fernando Gomes e não estava à espera de reagir assim. Hoje raramente vejo futebol e nunca, ou quase nunca, os jogos do FC Porto. O Mundial do Qatar passa-me ao lado e não é por razões de direitos humanos: também o da Rússia, esse paraíso dos direitos humanos, e os anteriores passaram. O único campeonato que me prendeu a atenção foi o Euro 2004, mas o ano de 2004 foi excessivamente divertido por motivos alheios ao futebol e o Euro acabou a fazer parte da festa.

Vi mais futebol até aos 20 e poucos anos do que no resto da minha vida por várias razões, uma delas porque as pessoas com quem eu me dava eram maluquinhas por futebol e acabei a quase divertir-me com aquilo. Por osmose ou isso. E aí percebi que a minha reacção à morte de Fernando Gomes era, como tantas vezes as reacções às mortes de heróis que desconhecemos são, mais uma derrocada naquele edifício que à distância é sempre perfeito – a nossa juventude.

Na época da minha adolescência, Fernando Gomes era uma estrela de cinema. Uma estrela que marcava golos nos campos do mundo e às vezes com o pé esquerdo. Como todas as estrelas de cinema, era um homem muito bonito. Mas, ao contrário de algumas estrelas de cinema insuportáveis, Fernando Gomes tinha aquele ar de miúdo-cavalheiro, desprovido da doença narcísica que torna as estrelas cansativas e pouco interessantes. Acho que nós, as miúdas que eram alguns anos mais novas do que ele, estávamos todas apaixonadas pelo doce Fernando Gomes. Era o herói, o “bibota” humilde (a palavra hoje passou a ter conotações negativas, vá lá saber-se porquê) o que tornava as coisas mais sexy. O único futebolista com quem gostava de ter namorado era mesmo Fernando Gomes.

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

 
 
Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens


Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens
Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Funeral do antigo jogador do F. C. Porto, Fernando Gomes
Foto André Rolo / Global Imagens

Por falar em sexy, um homem que compara um golo a um orgasmo tem que ter toda a nossa homenagem. Não é fácil, vá, dizer aquilo mas a ideia é universalmente compreendida.

Hoje, arrependo-me imenso de não o ter conhecido pessoalmente, de nunca o ter entrevistado. Já entrevistei algumas pessoas que admirava na política, na literatura (David Lodge e Enrique Vila-Matas, mas sucumbi das duas vezes à sensação de que mais valia ter ficado a ler os livros). E como nunca trabalhei no desporto, a coisa estava resolvida. Por que razão haveria eu de pedir uma entrevista a Fernando Gomes?

Do ponto de vista do “agenda-setting” de uma redacção, isto não faria sentido nenhum. Mas este sábado em que morre um doce herói da minha juventude, que só conheci pela televisão, acho que havia um monte de razões para o ter feito. Devia ter pedido há que tempos aos editores de Desporto que me deixassem tentar entrevistar o Fernando Gomes. E explicar-lhes-ia: “Deixem-me entrevistar o Fernando Gomes, eu não percebo muito de futebol nem de FC Porto, mas percebo de ver “bibotas” a jogar nos anos 80”.

Adeus, príncipe.

Fernando Gomes com a Taça Intercontinental, em Tóquio, em 1987 REUTERS

Fernando Gomes a 5 de janeiro de 2018 LUSA/HUGO DELGADO

Fernando Gomes
 



Fernando Gomes

Fernando Gomes com Emil Kostadinov, Rui Barros e Rabah Madjer, em 2005 MJ KIM/GETTY IMAGES FOR LAUREUS

Fernando Gomes

Fernando Gomes

Fotografias raras de como os nazis lideraram o ódio na Noite de Cristal

 

Nazis regam os bancos de uma sinagoga com combustível YAD VASHEM/WORLD HOLOCAUST REMEMBRANCE CENTER

Fotografias raras que mostram oficiais nazis fardados a participar activamente nos violentos ataques contra a comunidade judaica naquela que ficou conhecida como a “Noite de Cristal” (“Kristallnacht”) foram doadas recentemente ao Yad Vashem, o museu e memorial do Holocausto em Jerusalém. O álbum que contém estas imagens pertencia a um militar judeu americano que serviu na Alemanha durante a II Guerra Mundial.

O Yad Vashem anunciou a posse das fotografias no dia 9 de Novembro, quando se assinalou o 84.º aniversário da trágica noite de 1938. Na mesma ocasião, o museu afirmava que estas eram fotografias “inéditas”, mas esta informação viria a ser corrigida poucos dias depois pelo museu, após a neta do militar que tinha o álbum ter avançado no Twitter que já tinha publicado algumas das fotografias na sua conta daquela rede social em 2018. Várias destas fotografias também haviam sido mostradas no livro New Perspectives on Kristallnacht (2019) e no documentário da PBS The U.S. and the Holocaust, de Ken Burns, divulgado em Setembro deste ano.

 Cerca de 30 mil judeus foram presos na Noite de Cristal e enviados para campos de concentração Yad Vashem/World Holocaust Remembrance Center

Mais ou menos conhecidas, mais ou menos “inéditas”, certo é que as imagens agora divulgadas pelo Yad Vashem revelam uma rara proximidade de oficiais nazis a saquear e a destruir lojas, casas e pertences de judeus em Nuremberga e numa cidade vizinha, Fürth. Através do olhar de dois fotógrafos nazis, o conjunto oferece um vislumbre do que aconteceu na noite de 9 de Novembro de 1938, quando multidões anti-semitas na Alemanha, Áustria e parte da então Checoslováquia atacaram judeus e destruíram as suas propriedades numa mobilização sem precedentes. Esta onda de violência foi orquestrada pelos nazis.

Destruição de casas judaicas por nazis fardados durante a Kristallnacht, provavelmente em Fürth YAD VASHEM/WORLD HOLOCAUST REMEMBRANCE CENTER

O pogrom (perseguição de um grupo étnico ou religioso) de Novembro de 1938, que ficou conhecido como “Kristallnacht” por causa dos vidros partidos espalhados pelas ruas após os ataques, marcou o início da intensificação da opressão anti-semita sob o regime nazi e para muitos historiadores representa o início do próprio Holocausto.

As imagens divulgadas mostram membros fardados das organizações paramilitares nazis SS e SA como perpetradores da onda de violência, ateando fogos, vandalizando casas e humilhando e agredindo moradores. “Embora ache que muitas imagens da Kristallnacht são desconcertantes e perturbadoras, penso que estas reforçam ainda mais sentimentos desta natureza — porque há crueldade nelas”, disse ao The Washington Post o historiador Toby Simpson, director da Wiener Holocaust Library.

“Estas são diferentes de outras imagens que vi da Kristallnacht”, afirmou Simpson, acrescentando que outras fotografias desta noite de terror tendem a evitar mostrar directamente a cumplicidade dos oficiais nazis. “Num certo sentido, não combinava com a propaganda nazi ter pessoas fardadas como SA fotografadas a cometer crimes. Essa não era necessariamente a imagem que os nazis queriam retratar.”

Casa vasculhada e destruída — os livros eram um dos alvos da perseguição nazi YAD VASHEM/WORLD HOLOCAUST REMEMBRANCE CENTER

Agenda assassina

Não se sabe exactamente como é que as fotografias — tiradas na noite de 9 de Novembro de 1938 durante os ataques em Nuremberga e em Fürth — chegaram às mãos de um soldado americano que servia no departamento de contra-espionagem do Exército dos EUA na Alemanha. Este militar nunca falou sobre o que testemunhou, de acordo com sua filha Ann Leifer, que descobriu o álbum após a morte do pai ao limpar a sua casa nos Estados Unidos, onde a colecção ficou arrumada e invisível durante décadas.

Este ano, a família do veterano doou o álbum ao Yad Vashem, que lhe deu uma visibilidade muito maior. Segundo os historiadores, as fotografias fornecem uma rara prova visual da cumplicidade directa de oficiais nazis fardados nos pogroms anti-semitas, algo raramente captado em filme e negado pelos nazis na época.

 Os vidros partidos das lojas judaicas tornaram-se num dos principais símbolos da noite de 9 de Novembro de 1938 — os nazis não se limitaram a assistir à violência Yad Vashem/World Holocaust Remembrance Center


Entre as dezenas de imagens, há registos de pessoas assustadas e surpreendidas ainda na cama, pessoas agredidas, soldados da SS a confiscar pilhas de livros, destruição de casas, sinagogas e lojas judaicas, entre muitos outros momentos de caos e violência ocorridos naquela noite de perseguição e ódio. Responsáveis do Yad Vashem, depositário de muita da documentação sobre o Holocausto, confirmam a raridade das imagens e dizem que a realidade retratada é representativa dos muitos ataques que ocorreram na Alemanha e na Áustria durante a Noite de Cristal.

“Podemos ver pela enorme proximidade destas imagens que os fotógrafos foram parte integrante dos eventos retratados. Os ângulos e a proximidade com os perpetradores parecem indicar um objectivo claro — documentar fielmente os acontecimentos”, disse num comunicado de imprensa Jonathan Matthews, chefe dos arquivos fotográficos do Yad Vashem. “Tudo isto serve como mais uma prova de que aquele ataque foi ordenado de cima e não foi um evento espontâneo de uma comunidade enfurecida — eles tinham intenção de divulgar estes pogroms.”


Sinagoga destruída YAD VASHEM/WORLD HOLOCAUST REMEMBRANCE CENTER


Destruição dentro de uma sinagoga, provavelmente em Fürth YAD VASHEM/WORLD HOLOCAUST REMEMBRANCE CENTER

Sinagoga incendiada — no total, na Noite de Cristal foram destruídos 267 templos religiosos judaicos YAD VASHEM/WORLD HOLOCAUST REMEMBRANCE CENTER

Existem outras imagens históricas de membros da SA a participar na Kristallnacht, nomeadamente a colar cartazes antijudaicos ou a assistir ao desenrolar da violência — mas é raro ver imagens de nazis fardados a levar montes de livros e a aterrorizar mulheres. Numa dessas imagens, soldados da SS seguram livros religiosos antigos, provavelmente para serem queimados, de acordo com os arquivistas do memorial.

Além das casas saqueadas, em alguns casos pelos vizinhos e conhecidos das vítimas, durante a Noite de Cristal milhares de estabelecimentos comerciais judeus foram incendiados, 267 sinagogas destruídas e dezenas de pessoas mortas. Cerca de 30 mil judeus foram presos naquela noite e enviados para campos de concentração.

A violência — desencadeada no meio de uma crescente onda de anti-semitismo que dominava a Alemanha nazi da época — foi incitada por instruções do principal propagandista de Hitler, Joseph Goebbels. “O Führer decidiu que... as manifestações não devem ser preparadas ou organizadas pelo partido, mas, desde que surjam espontaneamente, não devem ser impedidas”, disse Goebbels aos oficiais nazis.


Oficiais nazis carregam livros religiosos antigos judaicos, provavelmente para serem queimados YAD VASHEM/WORLD HOLOCAUST REMEMBRANCE CENTER


Algumas das fotografias do álbum revelam agressões YAD VASHEM/WORLD HOLOCAUST REMEMBRANCE CENTER


 “Podemos ver pela enorme proximidade destas imagens que os fotógrafos foram parte integrante dos eventos retratados", diz Jonathan Matthews, chefe dos arquivos fotográficos do Yad Vashem YAD VASHEM/WORLD HOLOCAUST REMEMBRANCE CENTER

Apesar da pretendida aparência de espontaneidade, os tumultos foram planeados com antecedência pelas autoridades. E foram cuidadosamente programados para coincidir em três países. As propriedades não judaicas foram protegidas e as forças de segurança locais foram instruídas para prender tantos judeus quantos as prisões locais pudessem conter — tudo isto sugere uma coordenação minuciosa.

“Estas fotografias mostram claramente a verdadeira intenção dos nazis e os esforços sistemáticos e deliberados a que eles se dedicariam para cumprir a sua agenda assassina”, disse o presidente do Yad Vashem, Dani Dayan. “Estas fotografias constituem provas documentais importantes das atrocidades que foram infligidas aos judeus da Europa.”

 Mulheres e homens foram surpreendidos durante a noite nas suas casas, num tempo em que o anti-semitismo subia de tom na Alemanha nazi Yad Vashem/World Holocaust Remembrance Center


O facto de este álbum de fotografias — até agora pouco conhecido — ter sido descoberto numa casa de família é também um lembrete de que ainda existem provas históricas importantes que sobreviveram ao Holocausto e que ainda não foram investigadas por historiadores. “Por vezes, as pessoas assumem que já não há material historicamente significativo por aí para ser encontrado — mas há. E essa é também uma das coisas importantes que este álbum nos mostra”, disse Simpson.