domingo, 31 de julho de 2022

A “vã glória” de os políticos tentarem condicionar a História

 A tentação dos políticos de condicionarem o seu lugar na História parece inevitável. Assim como a impossibilidade de o conseguirem. A leitura que será feita pelos historiadores do futuro depende de factores que hoje não são controláveis. E, muitas vezes, o desejo dos políticos de determinar a imagem futura dirige-se mais a influenciar a sua imagem no presente.


São José Almeida 31 de Julho de 2022

Retrato do marquês de Pombal feito pelo pintor francês Louis-Michel van Loo em 1766


As declarações do primeiro-ministro, António Costa, foram interpretadas como uma tentativa de desvalorizar as críticas que o antigo chefe do Governo e ex-Presidente da República Aníbal Cavaco Silva lhe dirigiu no artigo de opinião Fazer mais e melhor, publicado no Observador, a 1 de Junho. Questionado por jornalistas, António Costa afirmou: “Cavaco Silva preocupa-se com o seu lugar na História; eu estou preocupado, sobretudo, com o futuro dos portugueses. Temos de fazer mais e melhor. Quanto ao passado de Cavaco Silva, tenho procurado valorizar o trabalho dos meus antecessores.”

A ironia do primeiro-ministro é explicada ao PÚBLICO pelo sociólogo António Barreto, ao lembrar que, “dentro do que se chama insultos políticos, um dos mais finos é o que diz que o político não vai ficar na História ou que vai ficar como nota de pé-de-página”. Mas ainda que tivesse sido uma menorização da importância que têm hoje as opiniões e as reflexões de Cavaco Silva, a questão ficou no ar: até que ponto pode um político influenciar ou mesmo determinar a imagem que de si fica para a História? “Qualquer político quer ficar na História”, diz António Barreto, acrescentando que “uns vivem obcecados com isso, outros são mais desprendidos”, mas todos “querem deixar a sua marca na História”.

O espectáculo do poder

O principal modo como os políticos procuram condicionar a imagem da sua acção para o futuro é a forma como exercem o poder. O exercício do poder é, segundo Barreto, visível “na pose física, na linguagem corporal”. E garante: “Mesmo os políticos que parecem descuidados o fazem. Quantas pessoas existem que cuidam tanto do seu descuido...”

Ainda que os políticos não consigam determinar em absoluto a forma como a História os verá, o exercício do poder é feito através da imagem que os políticos transmitem à população. António Barreto frisa que “o espectáculo do poder não é recente — o que é recente é o espectáculo do poder de massas”. E recorda uma pequena história: “Dias depois do terramoto de 1775, o marquês de Pombal, então conde de Oeiras, vai à Baixa com um desfile de coches. Um nobre chama-lhe a atenção de que está a gastar dinheiro, quando há gente a morrer. Ele responde: ‘Não é por mim, é pelo povo...’”


O espectáculo do poder é, assim, a forma como os governantes transmitem a sua imagem à população, como o exercício do seu poder é percepcionado e a sua autoridade aceite. Historicamente, esse poder era demonstrado, por exemplo, com as saídas reais, em que os soberanos exerciam o poder junto das populações, arbitrando conflitos, reconhecendo direitos, presidindo a julgamentos.

Mas há formas actuais de concretizar o espectáculo do poder. Já em democracia, Mário Soares recriou o instrumento das saídas reais através das presidências abertas (1986-1996). Ou seja, o “Presidente-rei” Mário Soares deslocava-se com o seu séquito, a sua corte — em suma, as suas casas militar e civil — visitando as populações, transformando questões locais, sectoriais ou temáticas em problemas nacionais. Claro que, num regime democrático, não podia ser o “Presidente-rei” a decidir o que era prerrogativa do poder executivo, mas esta forma de Mário Soares exercer a magistratura de influência transformou-se numa forma de pressão sobre os governos de Aníbal Cavaco Silva.

“A política sempre foi espectáculo, demonstração de protagonismo”, sublinha António Barreto, que acrescenta que “é o espectáculo do poder que mostra que há poder”. Explicando que “hoje o espectáculo do poder passa por falarem tendo atrás de si ou bandeiras ou militares ou entidades políticas ou frases de propaganda”, mas o sociólogo adverte que “um político que aparece vezes de mais acaba por transmitir fraqueza, vulnerabilidade, falta de espessura ou de densidade”.
O lugar do narcisismo

O exercício do espectáculo do poder é, assim, a forma como o poder se afirma e um instrumento que permite aos políticos ficarem ou não ficarem, de facto, para a História. Em conversa com o PÚBLICO, António Costa Pinto, investigador-coordenador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e professor no Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), defende mesmo que “os dois grandes motores de ambição política é o poder, em primeiro lugar, e o ficarem para a História como imagem positiva do poder”. Ainda que “muitas vezes a classe política assuma que o seu objectivo é servir o país, independentemente da natureza dos regimes”. Mas o professor do ISCTE estabelece uma diferença: “Consoante a personalidade, alguns políticos privilegiam mais a ambição a estar no poder, e menos o lugar que lhes reserva a História”.

António Barreto defende que “a razão principal por que se vai para a política é o poder”. Há também “o espírito de missão”, a ideia de poder “contribuir para o bem comum”. “Na política, acredito que há bons sentimentos e que há políticos que têm essa ideia de contribuir.” E aponta ainda uma “terceira razão”, que “é a presunção, a vaidade, o narcisismo”. Defendendo que a atitude de alguém “querer viver para além da vida e ficar na História é um comportamento vaidoso e presunçoso”, que classifica como “o cúmulo do narcisismo”. E frisa que isto é alimentado pela seguinte ideia: “Se penso que a História vai dizer algo de mim, fico com o meu ego engrandecido...”

Mário Soares em Guimarães durante a presidência aberta de 1987 ALFREDO CUNHA/ARQUIVO

Isabel Leal, professora catedrática de Psicologia, psicanalista e reitora do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), não subscreve totalmente esta leitura. “Não se pode dizer que todos os políticos são narcísicos”, afirma, em declarações ao PÚBLICO, ainda que assuma que “há estudos que apontam” para que existe “um conjunto de características de personalidade facilitadoras” da entrada na política. Ou seja, os políticos são “pessoas que têm características como gostarem de exposição, de reconhecimento, que valorizam a imagem pública e a gratificação”. Mas lembra: “Vivemos num tempo em que todas as pessoas se expõem nas redes sociais.”

Por outro lado, Isabel Leal sublinha que “a situação na política, a bolha em que vivem os políticos, exacerba características de personalidade que não eram preexistentes”, mas “não é só com os políticos que tal acontece.” Além de que “há imensos exemplos de pessoas que acabam por ter uma atitude discreta quando saem da vida pública”. E exemplifica: “Fernando Nogueira e António José Seguro tiveram exposição pública, foram líderes, mas quando acabaram, acabaram. Perderam e desapareceram. Carlos Carvalhas também praticamente desapareceu quando deixou de ser líder.” O exemplo oposto são os casos de “Marcelo Rebelo de Sousa e Marques Mendes”, que “nunca desapareceram da vida pública”.

A reitora do ISPA considera que “muitos estão na política porque fizeram a vida nesse sentido, estiveram nas juventudes partidárias, têm mães e pais com empenhamento político, acabam por fazer carreira política e vão vivendo com essa realidade” e acrescenta: “Passos Coelho e António Costa nascem e desenvolvem-se na política, foram-se fazendo, foram-se ajustando aos lugares que ocupam.”

O facto de “serem todos políticos não quer dizer que tenham personalidade idêntica”, prossegue Isabel Leal, até porque, “no mundo das redes sociais, há imensas pessoas que vivem profissional e socialmente” expostos e “têm níveis de exacerbação absurda”, razão pela qual “falar especificamente do narcisismo dos políticos não faz sentido”. E conclui: “Encontramos na política perfis muito diferentes. E ainda bem, porque significa que o serviço público existe. Se pensássemos que todos iam para a política por narcisismo ou por promoção própria, seria péssimo.”
A influência do regime

Tal como em muitos outros aspectos, também na tentativa de fixação de uma imagem para a História há matizes consoante a natureza do regime. António Costa Pinto defende que “a preocupação com o papel para a História é mais comum nas ditaduras”, uma vez que “os regimes ditatoriais propiciam mais essa vertente”, já que “o poder é personalizado na figura do ditador”. Além de que “muitos ditadores, ainda em vida”, tratam da “escrita de uma história gloriosa para ficar e inauguram estátuas”. Citando exemplos, o professor do ISCTE salienta que “Salazar anotava a sua própria correspondência para quem viesse a seguir e fosse ler”. Mas salienta que, mesmo em democracia, “há políticos que se preocupam de forma obsessiva com a forma como ficam para a História”.

Demonstrativo da obsessão por deixar o nome na História, no plano do legado material e patrimonial, é, para António Barreto, “a praga, a chaga das placas comemorativas com nomes de pessoas, nomes completos de quem inaugurou a estrada, o fontanário”, que há em Portugal. Uma prática que atravessa regimes e se prolonga em democracia e que é “muito típica de quem quer agradecer a quem tem poder e foi responsável pela obra”, sublinha o sociólogo, lembrando que “não há câmara que não tenha várias”. A mesma mania que preside à prática de colocar “os nomes nas ruas, onde há nomes completos e ainda com a indicação de engenheiro ou doutor”, acrescenta.

Maria Inácia Rezola, professora na Escola Superior de Comunicação Social, historiadora e biógrafa, afirma ao PÚBLICO que essa tentativa de condicionamento das leituras e análises futuras é real e avança com os casos dos políticos que biografou. “Os casos de António de Spínola e de Melo Antunes são paradigmáticos — cuidavam não só da sua imagem no momento político em que viviam, mas também do que se ia dizer sobre eles no futuro.”

O general Spínola na Guiné-Bissau em 1970,


Considera mesmo que, deste ponto de vista, “Spínola é o mais óbvio, trabalhou a imagem, trabalhou uma máquina de propaganda na Guiné, através da comunicação social”. E explica: “Cada fotografia, cada discurso, cada cerimónia eram encenados. Também o fez na Revolução, embora em tempo comprimido”. Ou seja, “fez a encenação da sua imagem para a posteridade, através da encenação da sua figura e do discurso”.

Já Melo Antunes “tinha um estilo completamente diferente, mais preocupado com a reflexão intelectual, menos preocupado com o imediatismo da sua figura, mas, a cada intervenção se sente que está a falar para a História”, sublinha Maria Inácia Rezola, que prossegue: “Ele procurou sempre menorizar a sua importância e o seu papel, mas a verdade é que as suas intervenções e os seus escritos apontam em sentido contrário.”

Pormenorizando, a biógrafa de Melo Antunes revela que “a este respeito é muito interessante o que Melo Antunes guardava no seu arquivo”. E refere que em relação “às negociações do II Pacto MFA/Partidos, guardou todos os apontamentos e todas as versões do documento por ele anotadas, os pareceres que pediu e o documento final, e nas duas versões, a manuscrita e a dactilografada”. Assim como “os pareceres que [o Presidente da República] Ramalho Eanes lhe pediu, no Verão em que começaram os governos de iniciativa presidencial”.

Lenda e História

Por seu lado, José Miguel Sardica, professor da Universidade Católica, historiador e biógrafo, declara ao PÚBLICO que “nenhum político pode dizer: ‘Eu vou controlar a maneira como entro para a História.’ Isso é impossível, mesmo escrevendo memórias.” E avança com o exemplo de Napoleão Bonaparte, que “vivia obcecado com a imagem de que de si ficaria para a História”. Tanto que, “quando foi para o exílio, em 1815, e até morrer, em 1821, depois de ter revolucionado a Europa, criado um império hegemónico, de ter sido o grande construtor da Europa liberal, dedicou-se a ditar ao conde de Las Cases as memórias O Memorial de Santa Helena, uma versão que não é a História que realmente aconteceu”. Napoleão estava “a ditar para a posteridade”.

A obra “foi um best-seller no século XIX, mas não controlou a História, onde Napoleão é um vencido”. Na verdade, José Miguel Sardica lembra que, na Batalha de Waterloo, “o duque de Wellington ganhou, mas não tem a imagem lendária que Napoleão tem”. No fundo, as memórias de Napoleão contribuíram para “a construção da lenda, do bonapartismo que todos os Presidentes de França querem ter”. E remata: “Cavaco Silva está a fazer isso.”

 
“Cavaco Silva preocupa-se com o seu lugar na História; eu estou preocupado, sobretudo, com o futuro dos portugueses. Temos de fazer mais e melhor", disse António Costa no início de Junho em resposta a um artigo de opinião do antigo Presidente da República e primeiro-ministro Daniel Rocha

Analisando o presente, José Miguel Sardica defende que, “mais do que Mário Soares — que sabia o seu lugar e que ia ficar para a História —, Cavaco Silva preocupa-se”, e explica: “Por não ser tão seguro, Cavaco Silva tem contas a ajustar com o país, dá recados, faz guerrilha verbal com António Costa, que irá bater o seu recorde como primeiro-ministro. Cavaco Silva lida mal com o que a História dirá dele e não reconhece a sua grandeza em nenhum político que o seguiu”. Outro político em quem José Miguel Sardica reconhece “essa mesma forma quase obsessiva” de controlar o que dele se diz e dirá é José Sócrates.

Igualmente António Barreto identifica a intenção de falarem para o presente. E realça que quando “as memórias são publicadas antes de os políticos morrerem” elas têm como objectivo “não só influenciar a História, mas também o presente, o modo como são vistos”. E também aponta para os exemplos de “Cavaco Silva e José Sócrates”, que “tentam corrigir a imagem que deles existe, querem ter uma narrativa para o presente”.
O agora e o futuro

Todavia, quando a História futura tratar do actual presente, ela irá basear-se em fontes históricas e “o político de hoje, quando faz um discurso, sabe que ele fica como documento para a História”, assim como ficarão “as cartas que envia para a família”, aduz José Miguel Sardica. Lamenta, porém, que em Portugal haja “poucos políticos que deixem memórias ou arquivos” e que este seja “um país em que não se valoriza os arquivos pessoais”. Mas lembra que Mário Soares fez uma fundação e “tem livros autobiográficos, as entrevistas a Maria João Avillez”. Assim como “Freitas do Amaral e Cavaco Silva não fizeram bem memórias, mas um testemunho, para alguém escrever a biografia deles”. Frisa, porém, que não há “uma biblioteca presidencial, como nos Estados Unidos”.

Também António Costa Pinto sublinha que um “elemento bastante importante” para a historiografia futura “são as memórias”, já que “os políticos escrevem para tentar fixar o seu papel na História”. E aponta que “as memórias de Cavaco Silva são isso”. Ainda em relação à importância das memórias, o professor do ISCTE acrescenta: “Algo interessante que ilustra a verdadeira obsessão de membros da classe política que tiveram um fim traumático, que têm rupturas no exercício do poder, é que os poucos que escreveram memórias transmitem a sensação de falhanço”.

Há políticos que “vivem com a obsessão” da sua imagem e “procuram jornalistas”, assim como “há os que escrevem memórias e autobiografias — em Portugal há pouco” —, sublinha António Barreto. “Os políticos têm pouca confiança nos historiadores”, salienta, sublinhando que “há políticos que morrem amargurados ou deixam de fazer política, porque pensam que a história não lhes fará justiça”, dando com exemplo “os casos de António de Spínola, de Mário Soares e de Álvaro Cunhal”, que “viveram convencidos de que a História iria ser injusta com eles”.

 Retrato oficial de Spínola enquanto Presidente da República. “Cada fotografia, cada discurso, cada cerimónia eram encenados", diz a biógrafa Maria Inácia Rezola Museu da Presidência da República

Contudo, José Miguel Sardica defende que “aqueles que querem hoje retocar a sua biografia podem ter algum êxito no futuro imediato, mas não na historiografia que será feita no futuro”. E insiste: “Cavaco Silva e José Sócrates podem estar preocupados, mas ninguém sabe como o mundo vai estar daqui a 50 anos.” Ou seja, frisa o professor da Católica, “a leitura que dos políticos será feita depende do que acontecer e como os próximos 50 anos vão dar razão a Cavaco Silva ou inocentar José Sócrates.” Isto porque, “por muito que os políticos queiram construir uma persona, podem fazer o esboço, mas só a História dirá que persona foram. A História, o tempo, não cura, apura, decanta, esclarece”.

Nesse sentido, o professor da Católica sublinha que “a saúde da democracia no futuro vai condicionar o que se pensará dos actuais políticos, se a evolução de Portugal for para iliberalismos, altera-se a imagem biográfica dos políticos de hoje”, quando estão a ser analisados num quadro político democrático. Colocando a questão de outro modo, José Miguel Sardica refere que “Passos Coelho é hoje um referencial da direita em reorganização e alvo fácil da esquerda, mas se houver outra crise” económica e financeira “a biografia de Passos Coelho pode voltar a ser necessária, como laboratório para a governação e para ser copiado pela esquerda”.

Com uma leitura positiva ou negativa, consoante a época e o contexto em que a sua acção é analisada pelos historiadores, há, contudo, políticos do século XX português que, segundo José Miguel Sardica, ficarão na História, como “D. Carlos I, António Costa, Sidónio Pais, Oliveira Salazar, Marcello Caetano, Mário Soares e Cavaco Silva”, ainda que “Mário Soares e Cavaco Silva precisem de pelo menos 50 anos para serem olhados como um marquês de Pombal ou um Fontes Pereira de Melo”, garante.

 Fontes Pereira de Melo (1819-1887) é considerado um dos mais marcantes políticos portugueses da segunda metade do século XIX. Em cima, retrato de Emílio Biel de 1883


O professor da Católica explica que, “por alguma razão, eles se ergueram sobre os outros, transformaram o país, eram estadistas”. E estabelece a diferença: “O político é o que pensa o hoje e o daqui a seis meses, o estadista tem uma visão, um desígnio, um ideal, um projecto”. Acrescentando que “Mário Soares é um estadista e um político que passou à História, nenhum livro sobre o século XX português deixará de falar dele — teve o desígnio da liberdade e da Europa. Cavaco Silva também teve um desígnio como primeiro-ministro, os seus governos são a década em que o país deu um dos seus maiores saltos, fez grandes reformas, o país estava irreconhecível dez anos depois”.
“Imortalidade simbólica”

Isabel Leal aduz que há dois ângulos de análise que explicam a vontade de ficar para a História dos políticos. Só que, frisa, ambos “não são exclusivos dos políticos, mas gerais a todas as pessoas”. Um desses ângulos de análise é “o facto de os políticos estarem muito tempo na vida pública, acabam por ter uma preocupação com a imagem, que é exacerbada em relação à média das pessoas”.

Actualmente, “vivemos num tempo que é de imagem” e “vemos essa modelação de imagem em todo o lado”, diz a psicanalista. Ora, “quem está na vida pública preocupa-se com a imagem” e, com o passar do tempo, faz “uma ‘centração’ maior” na sua figura. Isto porque “acaba por haver um isolamento”, os políticos passam a “viver em bolha”. Na vida política, “têm necessidade de fazer prevalecer a sua imagem, os seus valores, as atitudes que tomam, porque acreditam que elas não são acessíveis à maioria das pessoas” para que se dirigem e governam. Por isso, “têm necessidade de justificar-se para lá do seu tempo”.

É um fenómeno que, segundo Isabel Leal, “acontece com todas as pessoas a nível individual”, todos têm “a necessidade de uma narrativa sobre si controlada pelo próprio”, em relação aos outros que fazem parte das suas relações sociais. A diferença é que, “na vida pública, há uma necessidade de justificação para a comunidade”, sublinha. “É uma maneira de tentar controlar a realidade”, que se transforma numa “preocupação maior de quem está na vida pública”, já que “tem uma história que se vai revisitando”. Daí que os políticos tenham “necessidade de ir actualizando uma narrativa com alguma coerência”.

 Gabinete das Audiências do Presidente da República, no Palácio de Belém. É aqui que se reúnem habitualmente o Presidente e o primeiro-ministro Rui Gaudêncio

O segundo plano de análise da noção de passar à História, explica Isabel Leal, prende-se com “o conceito de imortalidade simbólica, um fenómeno teorizado por Robert Jay Lifton, que, em Portugal, foi muito estudado por Eurico de Figueiredo”, antigo professor catedrático de psiquiatria e psicanálise e ex-deputado do PS.

“Vivemos num tempo em que temos uma profunda consciência de que a existência humana e a vida acaba por ser efémera e que a História é uma narrativa que ninguém controla”, salienta a reitora do ISPA, que acrescenta que este “conceito explica porque é que acabamos por ter necessidade de achar que as nossas coisas nos transcendem, as coisas que ficam depois de nós”. Um sentimento que está ligado “à dificuldade de gerir a ansiedade perante a morte e a finitude” e que “aumenta com a idade”, prossegue a psicanalista. Essa é a razão por que “cada um ao seu nível quer deixar uma espécie de legado que o transcenda, querer ficar ou passar à História é uma preocupação com a finitude”, já que “continuar para além da vida é forma de justificar a existência”.

"Por não ser tão seguro, Cavaco Silva tem contas a ajustar com o país, dá recados, faz guerrilha verbal com António Costa, que irá bater o seu recorde como primeiro-ministro. Cavaco Silva lida mal com o que a História dirá dele e não reconhece a sua grandeza em nenhum político que o seguiu" José Miguel Sardica

A ideia de que a preocupação com a imagem que fica para o futuro é comum a outras pessoas e não um problema exclusivo dos políticos é corroborada por António Barreto, que lembra o caso de “Nubar Gulbenkian, filho de Calouste Gulbenkian, que deixou um livro de memórias porque se achava injustiçado”. O sociólogo salienta que ele “viveu obcecado pela história” e “durante três ou quatro anos gastou uma fortuna para comprar o obituário do The Times, cujos obituários, feitos com antecedência, eram muito famosos. Queria ler o seu obituário e pagou a jornalistas para saber o que dizia”. Ora, “quando morreu”, remata o sociólogo, “o obituário foi publicado e a última linha dizia: ‘O senhor gastou dinheiro para tentar alterar este obituário, mas não conseguiu.’”

“Toda a História é datada”

Em vida, António Barreto considera que é “razoavelmente inútil que os políticos se ocupem” de tentar condicionar o seu lugar na História, acrescentando que “há centenas de políticos, certamente bem-intencionados, dos séculos XVII, XVIII ou XIX, de que não se fala, uma vez que a História não é uma lista telefónica”. E defende que, “terminada a vida, vem o tempo, a poeira, os historiadores, e muito do que se pensava importante desaparece”. Isto porque, segundo o sociólogo, “o tempo e a História restabelecem o equilíbrio e a ordem de importância, o que nem sempre é justo”, e conclui: “Agora, tentar escrever em vida a sua história é muito inútil — será mesmo totalmente inútil.”

No mesmo sentido, António Costa Pinto garante que “os políticos nunca conseguiram condicionar a História” e defende mesmo que “é uma vã glória tentar condicionar a imagem que ficará para o futuro”. Até porque, segundo o professor do ISCTE, “a História faz a leitura do passado com o olhar do seu presente, lê as tensões do passado, faz a leitura política e simbólica, com as preocupações do presente.”

 José Sócrates em 2019, antes de ser ouvido por um juiz no âmbito do processo judicial que lhe foi movido em 2013. Para José Miguel Sardica, o antigo primeiro-ministro tem "uma forma quase obsessiva” de controlar o que dele se diz e dirá Daniel Rocha

Voltando a António de Spínola, Maria Inácia Rezola argumenta em sentido diverso. “Spínola é um perdedor, cuja recuperação foi feita pela democracia. Foi reintroduzido na política. Continua a ser uma figura com sol e sombra, mas que fascina os historiadores”, defende esta historiadora, considerando que “qualquer biógrafo não ficará indiferente à encenação da sua própria figura” e, nessa perspectiva, “é possível condicionar o trabalho do biógrafo”, até porque “o historiador não pode ignorar” esses dados e documentos. “Vai é lê-los de outra forma, faz uma selecção crítica”, salienta, para alertar que “o olhar crítico é a palavra chave” e concluir: “Nessa crítica, estará sempre o próprio historiador, a sua interpretação, que é o que torna a História interessante.”

Por isso, José Miguel Sardica defende que “a biografia é uma reconstrução e uma interpretação, não é um relatório e contas, não é uma crónica, as crónicas serviam para glorificar a vida, os grandes feitos, eram assépticas”. No fundo, garante, “fazer uma boa biografia não é só a narrativa de uma vida, mas uma abertura de uma época, um fresco de um tempo, uma janela, um ponto de mira.” Mas afirma que “uma biografia precisa de distância geracional” e argumenta: “Quando biografo o fontismo, posso não concordar, mas não estou a remoer.”

Salvaguardando que “o historiador é um produto do seu tempo” e “toda a História é datada”, o historiador afirma: “Uma biografia que escrevo hoje não seria igual se a fizesse daqui a 20 anos. Tenho de dizer, neste momento, o que acho sobre este indivíduo.” Frisando, contudo, que “fazer História não é fazer política, mas os valores e a mundividência do autor estão presentes na análise e na selecção de factos”, porque “a História também passa valores”. Daí que “não haja biografias definitivas. A biografia é um retrato de uma época e das cambiantes da vida de uma personagem”.

quarta-feira, 27 de julho de 2022

António Barreto

 


António Barreto

“É simplesmente desmoralizante. Ver e ouvir os serviços de notícias das três ou quatro estações de televisão é pena capital. A banalidade reina. O lugar-comum impera. A linguagem é automática. A preguiça é virtude. O tosco é arte. A brutalidade passa por emoção. A vulgaridade é sinal de verdade. A boçalidade é prova do que é genuíno. A submissão ao poder e aos partidos é democracia. A falta de cultura e de inteligência é isenção profissional.
Os serviços de notícias de uma hora ou hora e meia, às vezes duas, quase únicos no mundo, são assim porque não se pode gastar dinheiro, não se quer ou não sabe trabalhar na redacção, porque não há quem estude nem quem pense. Os alinhamentos são idênticos de canal para canal.
Quem marca a agenda dos noticiários são os partidos, os ministros e os treinadores de futebol. Quem estabelece os horários são as conferências de imprensa, as inaugurações, as visitas de ministros e os jogadores de futebol.
Os directos excitantes, sem matéria de excitação, são a jóia de qualquer serviço. Por tudo e nada, sai um directo. Figurão no aeroporto, comboio atrasado, treinador de futebol maldisposto, incêndio numa floresta, assassinato de criança e acidente com camião: sai um directo, com jornalista aprendiz a falar como se estivesse no meio da guerra civil, a fim de dar emoção e fazer humano.
Jornalistas em directo gaguejam palavreado sobre qualquer assunto: importante e humano é o directo, não editado, não pensado, não trabalhado, inculto, mal dito, mal soletrado, mal organizado, inútil, vago e vazio, mas sempre dito de um só fôlego para dar emoção! Repetem-se quilómetros de filme e horas de conversa tosca sobre incêndios de florestas e futebol. É o reino da preguiça e da estupidez.
É absoluto o desprezo por tudo quanto é estrangeiro, a não ser que haja muitos mortos e algum terrorismo pelo caminho. As questões políticas internacionais quase não existem ou são despejadas no fim. Outras, incluindo científicas e artísticas, são esquecidas. Quase não há comentadores isentos, ou especialistas competentes, mas há partidários fixos e políticos no activo, autarcas, deputados, o que for, incluindo políticos na reserva, políticos na espera e candidatos a qualquer coisa! Cultura? Será o ministro da dita. Ciência? Vai ser o secretário de Estado respectivo. Arte? Um director-geral chega.
Repetem-se as cenas pungentes, com lágrima de mãe, choro de criança, esgares de pai e tremores de voz de toda a gente. Não há respeito pela privacidade. Não há decoro nem pudor. Tudo em nome da informação em directo. Tudo supostamente por uma informação humanizada, quando o que se faz é puramente selvagem e predador. Assassinatos de familiares, raptos de crianças e mulheres, infanticídios, uxoricídios e outros homicídios ocupam horas de serviços.
A falta de critério profissional, inteligente e culto é proverbial. Qualquer tema importante, assunto de relevo ou notícia interessante pode ser interrompido por um treinador que fala, um jogador que chega, um futebolista que rosna ou um adepto que divaga.
Procuram-se presidentes e ministros nos corredores dos palácios, à entrada de tascas, à saída de reuniões e à porta de inaugurações. Dá-se a palavra passivamente a tudo quanto parece ter poder, ministro de preferência, responsável partidário a seguir. Os partidos fazem as notícias, quase as lêem e comentam-nas. Um pequeno partido de menos de 10% comanda canais e serviços de notícias.
A concepção do pluralismo é de uma total indigência: se uma notícia for comentada por cinco ou seis representantes dos partidos, há pluralismo! O mesmo pode repetir-se três ou quatro vezes no mesmo serviço de notícias! É o pluralismo dos *papagaios no seu melhor!
Uma consolação: nisto, governos e partidos parecem-se uns com os outros. Como os canais de televisão.
*Papagaios não, chilreada de periquitos sim!*”

quinta-feira, 7 de julho de 2022

O Encolhimento do Ocidente

Boaventura Sousa Santos, In Outras Palavras, 29/06/2022


Fracasso na guerra contra a Rússia pode acelerar um longo declínio. Mas com ele vêm arrogância e ambições irreais. E há perigo à frente – porque os impérios não se admitem nem como espaços subalternos, nem em relações igualitárias.
O que os ocidentais designam por Ocidente ou civilização ocidental é um espaço geopolítico que emergiu no século XVI e se expandiu continuamente até ao século XX. Na véspera da Primeira Guerra Mundial, cerca de 90% do globo terrestre era ocidental ou dominado pelo Ocidente: Europa, Rússia, as Américas, África, Oceânia e boa parte da Ásia (com parciais excepções do Japão e da China).
A partir de então, o Ocidente começou a contrair: primeiro com a revolução Russa de 1917 e a emergência do bloco soviético, depois, a partir de meados do século, com os movimentos de descolonização. O espaço terrestre (e logo depois, o extraterrestre) passou a ser um campo de intensa disputa.
Entretanto, o que os ocidentais entendiam por Ocidente foi-se modificando. Começara por ser cristianismo, colonialismo, passando a capitalismo e imperialismo, para se ir metamorfoseando em democracia, direitos humanos, descolonização, auto-determinação, “relações internacionais baseadas em regras” – tornando sempre claro que as regras eram estabelecidas pelo Ocidente e apenas se cumpriam quando servissem os interesses deste – e, finalmente, em globalização.
Em meados do século passado, o Ocidente havia encolhido tanto que um conjunto de países recém-independentes tomou a decisão de não se alinhar nem com o Ocidente nem com o bloco que emergira como seu rival, o bloco soviético. Assim se criou, a partir de 1955-61, o Movimentos dos Não-Alinhados.
Com o fim do bloco soviético em 1991, o Ocidente pareceu passar por um momento de entusiástica expansão. Foi o tempo de Gorbatchev e o seu desejo de a Rússia integrar a “casa comum” da Europa, com o apoio de Bush pai, um desejo reafirmado por Putin quando assumiu o poder.
Foi um período histórico curto, e os acontecimentos recentes mostram que, entretanto, o “tamanho” do Ocidente sofreu uma drástica contracção. No seguimento da guerra da Ucrânia, o Ocidente decidiu, por sua própria iniciativa, que só seria ocidental quem aplicasse sanções à Rússia. São neste momento cerca de 21% dos países membros da ONU, o que não chega a ser 15% da população mundial. A continuar por este caminho, o Ocidente pode mesmo desaparecer. Várias questões se levantam.
Contracção é declínio? Pode pensar-se que a contracção do Ocidente o favorece porque lhe permite focar-se sobre objectivos mais realistas com mais intensidade. A leitura atenta dos estrategas do país hegemónico do Ocidente, os EUA, mostra, pelo contrário, que, sem aparentemente se darem conta da flagrante contracção, mostram uma ambição ilimitada.
Com a mesma facilidade com que preveem poder reduzir a Rússia (a maior potência nuclear) a uma ruína ou a um Estado vassalo, preveem neutralizar a China (a caminho de ser a primeira economia mundial) e provocar em breve uma guerra em Taiwan (semelhante à da Ucrânia) com esse objectivo. Por outro lado, a história dos impérios mostra que a contracção vai de par com declínio e que esse declínio é irreversível e implica muito sofrimento humano.
No estágio actual, as manifestações de fraqueza são paralelas às de força, o que torna a análise muito difícil. Dois exemplos contrastantes. Os EUA são a maior potência militar do mundo (ainda que não tenham ganho nenhuma guerra desde 1945) com bases militares em pelo menos 80 países.
Um caso extremo de dominação é o da sua presença no Gana onde, por acordos estabelecidos em 2018, os EUA usam o aeroporto de Accra sem qualquer controle ou inspecção, os soldados norte-americanos não precisam sequer de passaporte para entrar no país, e gozam de imunidade extraterritorial, ou seja, se cometerem algum crime, por mais grave, não podem ser julgados pelos tribunais do Gana.
Em sentido contrário, os milhares de sanções à Rússia estão, por agora, a causar mais dano no mundo ocidental do que no espaço geopolítico que o Ocidente está a construir como não-ocidental. As moedas de quem parece estar a ganhar a guerra são as que mais se desvalorizam. A inflação e a recessão que se avizinham levam o CEO da JP Morgan, Jamie Dimon, a afirmar que se aproxima um furacão.
Contracção é perda de coesão interna? A contracção pode efectivamente significar mais coesão, e isso é bem visível.
A liderança da União Europeia, isto é a Comissão Europeia, tem sido nos últimos vinte anos muito mais alinhada com os EUA que os países que integram a UE. Viu-se com a viragem neoliberal e o apoio entusiasta à invasão do Iraque por parte de Durão Barroso e vemos agora com Ursula von der Leyen transformada em subsecretária de defesa dos EUA.
A verdade é que esta coesão, se é eficaz na produção de políticas, pode ser desastrosa na gestão das consequências delas. A Europa é um espaço geopolítico que desde o século XVI vive dos recursos de outros países que directa ou indirectamente domina e a quem impõe a troca desigual. Nada disso é possível quando o parceiro é os EUA ou os aliados deste.
Além disso, a coesão é feita de incoerências: afinal a Rússia é o país com um PIB inferior ao de muitos países da Europa ou é uma potência que quer invadir a Europa, uma ameaça global que só pode ser travada com o investimento que já ronda cerca de 10 bilhões de dólares em armas e segurança por parte dos EUA, num país distante do qual pouco restará se a guerra continuar por muito tempo?
A contracção ocorre por razões internas ou externas? A literatura sobre o declínio e fim dos impérios mostra que, salvo os casos excepcionais em que os impérios são destruídos por forças externas – caso dos impérios Azteca e Inca com a chegada dos conquistadores espanhóis – dominam, em geral, os factores internos, ainda que o declínio possa ser precipitado por factores externos.
É difícil destrinçar o interno do externo, e a específica identificação é sempre mais ideológica que outra coisa. Por exemplo, em 1964 o conhecido filósofo conservador norte-americano James Burnham publicava um livro intitulado o Suicídio do Ocidente. Segundo ele, o liberalismo, então dominante nos EUA, era a ideologia desse declínio. Para os liberais da época, o liberalismo era, pelo contrário, a ideologia que permitiria uma nova hegemonia mundial ao Ocidente, mais pacífica e mais justa.
Hoje, o liberalismo morreu nos EUA (domina o neoliberalismo, que é o seu oposto) e mesmo os conservadores da velha guarda foram totalmente superados pelos neoconservadores. É por isso que Henry Kissinger (para muitos, um criminoso de guerra) incomodou os prosélitos anti-Rússia ao pedir negociações de paz em Davos.
Seja como for, a guerra da Ucrânia é o grande acelerador da contracção do Ocidente. Uma nova geração de países não alinhados está a emergir, de facto alinhados com a potência que o Ocidente quer isolar, a China. Os BRICS, a Organização para a cooperação de Xangai, o Fórum Económico Euroasiático são, entre outras, as novas faces do não-ocidente.
O que vem depois? Não sabemos. É tão difícil imaginar o Ocidente como espaço subalterno no contexto mundial como imaginá-lo numa relação igualitária e pacífica com outros espaços geopolíticos.
Apenas sabemos que, para quem manda no Ocidente, qualquer destas hipóteses é impossível ou, se possível, apocalíptica. Por isso se multiplicam as reuniões nos últimos meses, do Fórum Económico de Davos (Maio) à mais recente reunião do grupo Bilderberg (Junho). Nesta última, em que participaram 5 portugueses, dos 14 temas, 7 tinham a ver directamente com os rivais do Ocidente. Saberemos o que discutiram e decidiram seguindo atentamente as capas de The Economist dos próximos meses.

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Portugueses descobrem manuscrito de Padre António Vieira desaparecido há 300 anos

 

Clavis Prophetarum era apontada pelo jesuíta como a sua obra-prima, versando sobre a necessidade do fim do mundo para que surja outro novo, mais próximo do original da criação divina.

O manuscrito original da obra Clavis Prophetarum (em português A Chave dos Profetas), da autoria do Padre António Vieira, que se encontrava desaparecido há 300 anos e cuja existência muitos colocavam já em causa, foi descoberto por dois investigadores portugueses em Roma, na Biblioteca Gregoriana, avançou o jornal Expresso esta sexta-feira, 27 de maio.

Ana Travassos Valdez, especialista em literatura apocalíptica e investigadora principal do Centro de História da Universidade de Lisboa, e Arnaldo Espírito Santo, professor emérito da Faculdade de Letras, fizeram todos os testes e verificações necessários para assegurar que se trata realmente do original da obra que resulta de décadas de trabalho do autor.

A descoberta será anunciada oficialmente na próxima segunda-feira, 30 de maio, pelas 16h30, numa transmissão em direto e em simultâneo a partir da Universidade Gregoriana de Roma e da Universidade de Letras de Lisboa. Durante esta sessão, serão desvendadas imagens do manuscrito, que foi redigido em latim, ao longo de 324 folhas desiguais. Às 18horas do mesmo dia, o 7MARGENS divulgará mais pormenores sobre o texto e a sua apresentação pública.

Este é considerado um momento fulcral na investigação em torno da obra de Vieira, dado que Clavis Prophetarum era apontada pelo próprio jesuíta como a sua obra-prima, versando sobre a necessidade do fim do mundo para que surja outro novo, mais próximo do original da criação divina. Nascido em Lisboa em 1608, o padre António Vieira é tido como “o imperador da língua portuguesa”

sexta-feira, 1 de julho de 2022

As botas rotas de Salazar

 

botas rotas

Por Alexandre Parafita
Filho que sou de um militar da GNR, dos antigos, alinhado quanto baste com os cânones do Estado Novo, amiúde me falava das botas rotas de Salazar, insinuando que os "grandes homens" serão ainda "maiores" quando mostram não terem vergonha de ser pobres, ainda que o não sejam.

Se as botas rotas eram uma estratégia de marketing de um regime que aclamava o conformismo dos humildes, ou simplesmente o status quo de um "unhas de fome", ao jeito do apodo que outrora os povos vizinhos atribuíam aos de Sabrosa, a minha terra ("sapato engraxado e o pé na poeira"), nunca o consegui perceber. Percebi sim que nesta deificação da pobreza, o meu pobre pai, mal os filhos foram emergindo como cogumelos, não teve remédio senão desenterrar a enxada, e, nas horas livres, vergar-se sobre a terra em busca do sustento para os seus que o salário de miséria que o Estado Novo lhe garantia não comportava.

Certamente, se ainda por cá andasse, o quão não ficaria assombrado perante as milionárias e indecorosas subvenções vitalícias que o Estado português atribui mensalmente a mais de três centenas de políticos, ex-governantes e deputados da nossa era. Há quem ultrapasse os 13 mil euros por mês. Alguns adquiriram o direito a essa "esmola" do erário público ainda em plena juventude, pouco ou nada tendo produzido para o Estado. Alguns, já reformados, acumulam-na com as suas chorudas reformas. No geral, custam mais de meio milhão por mês ao bolso dos contribuintes, num país que é hoje um dos mais pobres da Europa com um quinto da população em situação de pobreza ou de exclusão social.

E, paradoxalmente, alguns são até fervorosos democratas (!); leia-se amigos dos pobres, dos mais desfavorecidos, e que não hesitam em trombetear os seus historiais de luta antifascista, como porta-voz dos mais desamparados da sociedade.

*Escritor e jornalista


Há 318 ex-políticos a receberem subvenções mensais vitalícias

A lista dá conta de 318 ex-políticos – como antigos primeiros-ministros, ex-deputados ou autarcas – e juízes do tribunal constitucional que recebem subvenções com valores que vão dos 880 euros aos 13.600 euros mensais. No total, o Estado paga mensalmente mais de 463 mil euros aos beneficiários destas subvenções.