domingo, 5 de novembro de 2023

Luis Baylón (1958-2023), um fotógrafo não tão perdido assim


Autorretrato. Calle Alameda, Madrid, Março de 2004 LUIS BAYLÓN

Luis Baylón (1958-2023), um fotógrafo não tão perdido assim
Andou em escolas de Fotografia, mas desistiu depressa: preferiu aprender na rua, à deriva. Apanhou a Madrid callejera como poucos, sem nunca abandonar a sua fiel companheira, a Rolleiflex.

Sérgio B. Gomes 5 de Novembro de 2023

Un vicio, 1987

Há uma certa aura romântica no fotógrafo em modo “perdido no mundo”. É uma narrativa que vende e que também cola bem na do fotógrafo-génio-blasé, alguém que só com a magnitude da sua presença faz com que tudo aconteça, seja uma fotografia ou várias — todas “geniais”, claro. À primeira vista, Luis Baylón parece encaixar (ou foi sendo encaixado) em estereótipos deste tipo (e outros, como o do “artista maldito”), mas, à medida que as suas imagens vão passando à frente dos nossos olhos, percebemos que só um grande conhecimento do humano, da vida e do labor fotográfico permitiram colocá-lo ao lado dos maiores fotógrafos de rua da segunda metade do século XX; e aquele que terá conseguido captar de forma mais palpável a identidade de uma cidade, Madrid.
Parece claro que Luis Baylón — ou apenas Baylón, como era mais conhecido — ergueu a obra que ergueu (crua, directa, mordaz, inocente, humorística, antiespectacular; fotografia sem corantes nem conservantes) não por sucessivos golpes de sorte, nem por ter ficado a descansar à sombra da bananeira imbuído de um qualquer espírito de génio, depois de ter sido parte activa na torrente visual que ajudou a dar forma à movida madrilena dos anos 1980, mas porque ao olhar talentoso soube juntar o “olfacto de rua” (Quico Rivas), uma generosidade e um jogo de cintura que lhe permitiram mover-se como um gato sem dono, livre de modas, tendências ou diktats de mercado.

Parece claro também que, para além de saber cheirar a rua, Baylón não se colocava fora dela, como se fosse apenas um espectador do grande teatro urbano, sempre à procura da próxima figura mais freak. “A rua é o seu território, o seu domínio…”, escreveu o fotógrafo francês Bernard Plossu, com quem Baylón construiu uma intensa amizade a partir de 1994. E o que também parece claro é que Baylón não usou as profundas e múltiplas tragédias pessoais como estratégia de vitimização carreirista. Com uma vida repleta de altos e baixos, manteve sempre acesa a paixão pela fotografia e, através dela, pela vida.


Fotografia de capa do livro Sólo Fumadores, de 2004 LUIS BAYLÓN


Na verdade, a fotografia chegou à vida de Luis Baylón por causa de uma pequena tragédia alheia — em 1976, depois de ter rompido o noivado, um amigo argentino perguntou-lhe se ele lhe podia comprar uma Canon FTB para que pudesse juntar dinheiro para o bilhete de regresso a Buenos Aires. Mais por favor do que outra coisa, Baylón comprou-lhe a câmara e daí nasceu a paixão (a Rolleiflex viria um pouco mais tarde). Tinha 18 anos, a mãe tinha morrido pouco antes, num acidente, tinha-se zangado com o pai e estava em Ibiza mergulhado no ócio e na heroína, vício que o atormentaria durante 20 anos.
Há um antes e um depois desta longa trip na vida de Baylón, que, tirando uns meses no Photocentro, foi um autodidacta. A partir de 1996, depois de ter superado o vício, começa a publicar livros de fotografia com regularidade, expõe individualmente fora de Espanha e passa a integrar colecções públicas e privadas de fotografia. Ou seja, o talento que muitos já tinham reconhecido (com o crítico Quico Rivas à cabeça) começou finalmente a ser partilhado, quando antes o que reinava era o improviso, a desorganização e a sobrevivência.

Carterista, Madrid, 1997

Olhando para as quatro décadas de fotografia que nos deixou (que o próprio resumiu assim: “Lugares”, “Animalada”, “Madrid Anónimo”), o que não parece ter sido abalado antes, durante ou depois da heroína foi a capacidade de encontrar imagens carregadas de “franqueza, alguma malícia e uma certa autoconfiança”, tudo conjugado com “excelentes reflexos”, um caldeirão de atributos que no dizer de Rivas resultavam naquilo que Baylón mais queria ser, um fotógrafo natural: “Reproduzir a realidade com naturalidade, sem intervir no que se está a ver; sem compor a cena, sem modificá-la. Não agredir; não maquilhar. Fotografar as pessoas tal como são, como se mostram, e não como o fotógrafo gostaria que elas fossem”.

Como bem lembrou Bernard Plossu — que percorreu muitas vezes as ruas de Madrid com Baylón e que o considerava “um enorme fotógrafo” —, “o formato das imagens também participa no seu conteúdo”. Por isso não se pode falar de Baylón sem falar do seu amor por um formato (quadrado) e por uma câmara (Rolleiflex), amor que manteve até ao fim. Foi o pai que lha deu em 1984, depois de umas pazes por telefone em que choraram baba e ranho. Mas apesar de um tão grande amor, Baylón alerta para o perigo do nos deixarmos cegar com o aparato. “Acho que agora se desenvolvem as câmaras, mas os fotógrafos não evoluem. O fotógrafo tem que conhecer muito bem a sua ferramenta e a técnica e saber o que quer. Estamos a começar a ver como vêem as câmaras e não como nós vemos”, dizia numa conversa com Manuel Jabois, no El País, em 2021, a propósito do lançamento de Madrid en Plata (This Side Up/Achivo Lafuente), o último livro que publicou, e que percorre o seu trabalho na capital espanhola entre 1984 e 2017, “uma homenagem impressionante à cidade onde Baylón viveu e morreu várias vezes” (Jabois).

La Bailarina, 1990 LUIS BAYLÓN

Aliás, diz quem conhece bem a obra de Baylón que os livros que editou são um dos seus maiores legados, “uma delícia visual”, nas palavras de Martín Page, fotógrafo, vizinho e amigo de Baylón. Entre os mais marcantes estão Tarde de Toros (1996), Baylón (1999), Guirigato (2001), Sólo Fumadores (2004), Benarés (2005), Par de Dos (2005), En Valencia (2008), Autogarabato (2009) e Escatapartes (2011).

Luis Baylón, que tinha “bigode de gato, olhar de gato e riso de gato” (Andrés Barba), morreu no dia 21 de Outubro. Tinha 65 anos.

Outra vez Plossu. “Baylón, és o fotógrafo por excelência e compreendeste perfeitamente o enorme papel da fotografia: o tom justo.”