sábado, 13 de abril de 2019

Familias "numerosas" em Portugal....!



"Não há mais nenhum caso como o nosso na Europa. Nenhum!

Somos manifestamente uma “República familiar” onde quase todos os parentes do PS têm lugar no governo. Uma vergonha que nos coloca ao nível dos países mais corruptos e ditatoriais mas que não envergonha nadinha o PS que usa e abusa do nepotismo para se instalar no poder. Isto não é uma democracia. Isto é um “polvo”. Uma “família siciliana”. Um grande negócio.

Não lembra nem ao diabo, ter no mesmo governo a família inteira Vieira da Silva: pai, mãe e filha. Como não lembra ter inúmeros cônjuges, filhos, noras, irmãos e amigos (estes nunca podem faltar). Preparados para a lista?

Aqui vai:
João Gomes Cravinho, ministro da Defesa, é filho do ex-ministro João Cravinho;
António Mendonça Mendes, secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, é irmão de Ana Catarina Mendes, secretária-geral adjunta do PS;
Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna, é marido de Ana Paula Vitorino, ministra do Mar;
Ana Paula Vitorino, ministra do Mar, escolheu recentemente o advogado Eduardo Paz Ferreira para presidir à comissão que vai renegociar a concessão do terminal de Sines (em cima da mesa: 100 milhões de euros para expansão do terminal);
O advogado Eduardo Paz Ferreira é marido da ministra da Justiça, Francisca Van Dunem;
Maria Manuel Leitão Marques, que agora deixou o governo, irá ocupar em Junho o cargo de deputada do PS no Parlamento Europeu;
Esse cargo já antes foi ocupado pelo seu marido, Vital Moreira;
A mulher do eurodeputado Carlos Zorrinho, Rosa Matos Zorrinho, deixou de ser secretária de Estado da Saúde, mas foi, entretanto, nomeada para presidir ao conselho de administração do Centro Hospitalar Lisboa Central;
Guilherme Waldemar d’Oliveira Martins, filho do ex-ministro Guilherme d’Oliveira Martins, também deixou agora de ser secretário de Estado das Infraestruturas, após António Costa ter nomeado para ministro do Planeamento o seu amigo Nelson de Souza;
Nelson de Souza vai juntar-se no governo ao grande amigo Pedro Siza Vieira, ministro-adjunto;
Há ainda outro grande amigo, Diogo Lacerda Machado, que nunca quis ir para o governo, mas foi ajudando bastante, até acabar administrador da TAP. (Fonte Crónica Miguel João Tavares).

Calma que ainda não acabou:
Pedro Nuno Santos é casado com Ana Catarina Gamboa, também ela com um passado de dirigente da JS e mais recentemente assessora do amigo e ex-vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Duarte Cordeiro;
A mulher de Duarte Cordeiro, Susana Ramos, foi directora do departamento social da autarquia da capital, mas em Março de 2017 foi escolhida para coordenar um organismo criado pelo governo nessa mesma data;
O ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, trabalhou com a mulher no próprio Ministério. Isabel Marrana foi chefe de Gabinete de uma das secretarias de estado, até ter pedido a demissão há 6 meses;
No gabinete do primeiro-ministro, está Patrícia Melo e Castro como assessora, cunhada de Ana Catarina Mendes, a número dois de António Costa no partido, que por sua vez, é irmã do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, António Mendonça Mendes;
No Ministério dos Negócios Estrangeiros encontramos Francisco, como Técnico Especialista desde 2015. E numa empresa da Defesa Nacional, vemos o irmão mais novo, João Maria, como assessor. (Fonte RTP Notícias)

Espere não se vá já embora. Agora vem a família de César:
São cinco: além do líder parlamentar socialista, Carlos César, há outros quatro “césares” na administração pública e em cargos públicos;
a mulher foi nomeada pelo Governo regional;
o filho foi eleito pelo PS regional;
a nora nomeada por uma secretária do governo regional;
o irmão escolhido pelo ex-ministro da Cultura do actual Governo. (Fonte Sábado)

Está já cansado? Resista mais um bocado. Em Elvas, um concelho liderado pelo PS, a RTP denunciou recentemente o autarca Nuno Mocinha que abriu um mega-concurso público onde colocou 27 familiares seus. (Fonte RTP Notícias)

O que é que isto nos diz sobre nosso país?

Exactamente aquilo que não queremos ouvir nem admitir: que somos culturalmente uma desgraça, sem princípios, sem valores, sem ética e que a “cunha” e “amiguismo” está no nosso ADN. Uns mais, outros menos. Mas é um facto. Se auditássemos o país todo tenho a certeza que ficaríamos anos de boca aberta sem a conseguir fechar de tantos “negócios familiares” que encontraríamos no poder público. Esta é a nossa triste realidade que faz de nós um país pobre e mal governado.

Perante tamanha evidência esperava-se que o Presidente da República puxasse as orelhas aos meninos mal comportados ao invés de afirmar vergonhosamente que este governo “tem laços familiares por mérito próprio”. Se já a situação em si nos deixa manchados junto da opinião internacional, o Presidente legitimou a nossa tradição de “chico-espertice” ao apoia-la!

É preciso urgentemente pôr um ponto final nisto e tal como na França (e muito bem), proibir estas práticas. O Governo não deve ser o Centro de Emprego para gente inútil que nunca trabalhou na vida, e que mais não tem no currículo que cursos ditos superiores, mestrados e doutoramentos (alguns feitos aos domingos) com experiência zero fora da vida política, que nunca se submeteu sequer a uma entrevista de trabalho ou concurso!

Exige-se que quem exerça cargos públicos seja efectivamente competente e com um percurso profissional de pelo menos de 11 anos fora da bolha política. Porque é no terreno que se formam bons profissionais. E só bons profissionais formam bons governantes.

Cristina Miranda"

sexta-feira, 12 de abril de 2019

"CANSEI-ME... RENDO-ME...!"

HÉCTOR LLANOS MARTÍNEZ 11 NOV 2018


Leonardo Haberkorn, jornalista e escritor, foi professor numa universidade de Montevideu. Corre na internet um artigo seu publicado em papel, em 2015, com o título "Me cansé... me rindo...", onde declara ter deixado o ensino, que antes o apaixonava, e explica porquê.

Tomámos a liberdade de o traduzir, pois, por certo, ele tocará muitos professores e directores de escolas portuguesas. Desejável é que tocasse instâncias superiores e, de modo mais alargado, toda a sociedade.

"Depois de muitos e muitos anos, hoje dei a última aula na Universidade...

Cansei-me de lutar contra os telemóveis, contra o whatsapp e contra o facebook.

Ganharam-me.

Rendo-me.

Atiro a toalha ao chão.

Cansei-me de falar de assuntos que me apaixonam perante jovens que não conseguem desviar a vista do telemóvel que não pára de receber selfies.

Claro que nem todos são assim.

Mas cada vez são mais...

Até há três ou quatro anos a advertência para deixar o telemóvel de lado durante 90 minutos, ainda que fosse só para não serem mal-educados, ainda tinha algum efeito.

Agora não.

Pode ser que seja eu, que me desgastei demasiado no combate.

Ou que esteja a fazer algo mal.

Mas há algo certo: muitos desses jovens não têm consciência do efeito ofensivo e doloroso do que fazem.

Além disso, cada vez é mais difícil explicar como funciona o jornalismo a pessoas que o não consomem nem vêem algum sentido em estar verdadeiramente informadas.

Esta semana foi tratado o tema Venezuela.

Só uma estudante entre 20 conseguiu explicar o básico do conflito.

O muito básico.

O resto não fazia a mais pequena ideia.

Perguntei-lhes (...) o que se passa na Síria?

Silêncio.

Que partido é mais liberal ou que está mais à 'esquerda' nos Estados Unidos, os democratas ou os republicanos?

Silêncio.

Sabem quem é Vargas Llosa?

Sim!

Alguém leu algum dos seus livros?

Não, ninguém!

Lamento que os jovens não possam deixar o telemóvel, nem na aula.

Levar pessoas tão desinformadas para o jornalismo é complicado.

É como ensinar botânica a alguém que vem de um planeta onde não existem vegetais.

Num exercício em que deviam sair para procurar uma notícia na rua, uma estudante regressou com a notícia de que se vendiam, ainda, jornais e revista na rua.

Chega um momento em que ser jornalista é colocar-se na posição do contra.

Porque está treinado a pôr-se no lugar do outro, cultiva a empatia como ferramenta básica de trabalho.

E então vê que estes jovens, que continuam a ter inteligência, simpatia e afabilidade, foram enganados, a culpa não é só deles.

Que a incultura, o desinteresse e a alienação não nasceram com eles.

Que lhes foram matando a curiosidade e que, com cada professor que deixou de lhes corrigir as faltas de ortografia, ensinaram-lhes que tudo é mais ou menos o mesmo.,,

Então, quando compreendemos que eles também são vítimas, quase sem darmos conta vamos baixando a guarda.

E o mau é aprovado, como medíocre e o medíocre passa por bom, e o bom, as poucas vezes que acontece, celebra-se como se fosse brilhante.

Não quero fazer parte deste círculo perverso.

Nunca fui assim e não serei assim.

O que faço, sempre fiz questão de o fazer bem.

O melhor possível.

E não suporto o desinteresse, face a cada pergunta que faço e para a qual a resposta é o silêncio.

Silêncio...

Silêncio...

Silêncio. ..!!!

Eles queriam que a aula terminasse.

Eu também."



Talvez o pior de tudo seja o facto de aqueles alunos que vão ser Adultos amanhã, sem terem crescido nem amadurecido intelectualmente, julgam-se cheios de Direitos e sem Deveres nem Responsabilidade .

Alguns serão Políticos e até Governantes …ASSUSTA!

António Lobo Antunes



Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida.

Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento.
Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos.

Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos.

Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estoico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade.
O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade as vezes é hereditário, dúzias deles.

Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão.

O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal.

Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito.

Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver:
- Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro
- Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima
- Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo
que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores, que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade.

As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente, indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.
Vale e Azevedo para os Jerónimos, já!
Loureiro para o Panteão já!
Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já!
Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia.

Para a Batalha. Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram. Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito.
Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis.
Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair.

Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar do D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano. Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos. Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar.
Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho.
Agradeçam a Linha Branca.
Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar.
Abaixo o Bem-Estar.

Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval.
Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos.
Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa.
Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.
Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar?

O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.

António Lobo Antunes